Um abrigo depois das chuvas


Aurilene e a família estão abrigados no Parque de Exposições (Foto: Angela Peres/Secom)

Aurilene e a família estão abrigados no Parque de Exposições (Foto: Angela Peres/Secom)

Priscila Neri trabalha em casa de família e tem três filhos. Aurilene Gomes presta serviços gerais, mas está de licença maternidade depois de ganhar o terceiro filho. Em comum elas têm o endereço, o Parque de Exposição, espaço que vem sendo utilizado para abrigar parte das pessoas que foram atingidas pela maior cheia do Rio Acre.

No abrigo desde 9 de fevereiro Aurilene Gomes é moradora do bairro Cadeia Velha, fortemente atingido pela cheia. Ela destaca a importância dos serviços que são prestados aos desabrigados pelo poder público. “Já são muitos dias fora de casa e o melhor mesmo seria se nada disso tivesse acontecido. Mas por outro lado é preciso reconhecer o trabalho de dedicação das pessoas que nos auxiliam no abrigo. Da estadia não tenho do que reclamar, o difícil mesmo vai ser voltar pra casa”, disse ela.

O sentimento de gratidão de Aurilene é compartilhado por Maria Lucinete de Andrade. “Temos hora certa para comer. A segurança está sendo mantida. E as pessoas cuidam muito bem da gente. É o tempo todo passando pelos boxes pra saber se estamos bem. Não pensava que seria assim, tinha receio de vir para um abrigo. Estou surpresa e agradecida”, completou.

 São mais de 103 mil cidadãos atingidos pela enchente, somente em Rio Branco (Foto: Angela Peres/Secom)

São mais de 103 mil cidadãos atingidos pela enchente, somente em Rio Branco (Foto: Angela Peres/Secom)

 
Os números relativos à enchente precisam ser contabilizados diariamente e mostram a grandiosidade do desastre natural e da necessidade de montar uma estrutura capaz de manter tantas pessoas longe de suas casas. São mais de 103 mil cidadãos atingidos pela enchente, somente em Rio Branco, sendo que 6.716 pessoas precisaram ser removidas para um dos seis abrigos públicos que estão sendo mantidos pelo governo do Estado e prefeitura.

À medida que o Rio Acre subia mais famílias foram sendo retiradas pela Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, com o apoio de voluntários e equipes do exército brasileiro. Nos dias mais agitados famílias chegavam ao Parque de Exposições no meio da madrugada. “Chegamos aqui no meio da noite com a ajuda da Defesa Civil. Esta foi a primeira vez que tive a casa invadida pelas águas do Rio Acre, e que precisei ficar em um abrigo. O mais importante é a forma atenciosa que as pessoas que trabalham aqui nos tratam”, relatou Maria das Graças Olinda, moradora do bairro Cadeia Velha.

Tão logo os desabrigados chegam aos abrigos fazem um cadastro inicial com informações básicas sobre as famílias. Depois do acolhimento um novo cadastro socioeconômico é feito. “Estes dados são essenciais para a gestão dos abrigos. A partir deles fazemos os planejamentos de alimentação, quantidade de boxes necessários, e de atividades que devem ser realizadas para cada tipo de público presente aqui”, ressaltou a secretária de Assistência Social, Estefânia Pontes.

Os móveis trazidos são catalogados e separados com lonas, lacrados e colocados nos espaços denominados inventários (Foto: Angela Peres/Secom)

Os móveis trazidos são catalogados e separados com lonas, lacrados e colocados nos espaços denominados inventários (Foto: Angela Peres/Secom)

Os móveis trazidos são catalogados e separados com lonas, lacrados e colocados nos espaços denominados inventários. Estes espaços são vigiados dia e noite para evitar furtos. Dentro dos boxes fica somente o indispensável, como colchões, roupas e outros objetos de uso pessoal. Todos eles têm tomadas para garantir o uso de televisores e ventiladores. 

Uma mini-cidade e o acesso a vários serviços

Assim como uma cidade é divida por bairros e oferece vários serviços públicos. O Parque de Exposições precisou ser dividido em três micros áreas, e para cada uma delas foi designado um coordenador responsável pelas demandas (Foto: Angela Peres/Secom)
Assim como uma cidade é divida por bairros e oferece vários serviços públicos. O Parque de Exposições precisou ser dividido em três micros áreas, e para cada uma delas foi designado um coordenador responsável pelas demandas (Foto: Angela Peres/Secom)
Assim como uma cidade é divida por bairros e oferece vários serviços públicos. O Parque de Exposições precisou ser dividido em três micros áreas, e para cada uma delas foi designado um coordenador responsável pelas demandas (Foto: Angela Peres/Secom)

Assim como uma cidade é divida por bairros e oferece vários serviços públicos. O Parque de Exposições precisou ser dividido em três micros áreas, e para cada uma delas foi designado um coordenador responsável pelas demandas (Foto: Angela Peres/Secom)

Assim como uma cidade é divida por bairros e oferece vários serviços públicos. O Parque de Exposições precisou ser dividido em três micros áreas, e para cada uma delas foi designado um coordenador responsável pelas demandas. São áreas destinadas aos boxes, à recreação, palestras, cursos, cultos ecumênicos e unidades administrativas. Os serviços prestados são os mais variados como segurança, entrega de alimentos, saúde, lazer, segunda via de documentos, cadastro nos programas sociais, palestras, assistência social, mediação de conflitos, acesso à internet, corte de cabelo e esporte. Na Casa de Vidro, uma das unidades administrativas, estão reunidos o Ministério Público Estadual, a Polícia Civil (com delegados de plantão 24 horas), a OCA e a Defensória Pública, com profissionais destacados para oferecer seus serviços de cada órgão aos desabrigados.

“Com uma rede de atendimento variada é forte a presença do Estado. As ocorrências que surgem neste espaço são resolvidas em sua maioria aqui mesmo”, destacou o delegado de polícia civil, Jarlen Rodrigues. Psicólogas, assistentes e agentes sociais se revezam no atendimento de pessoas com algum tipo de problema seja entre familiares ou ‘vizinhos’. Estes profissionais são responsáveis também por receber as solicitações específicas, como necessidades de alimentação diferenciada. “As solicitações são encaminhadas para as redes de atenção. Esta ação ajuda a eliminar focos de tensão”, completou Estefânia. A Polícia Militar faz rondas constantes pelos abrigos, com a proposta de garantir a segurança dos desabrigados. No Parque de Exposições uma unidade móvel da PM foi instalada, e homens se revezam 24 horas por dia.

O Programa Justiça Comunitária também está presente entre os serviços ofertados para os desabrigados, levando justiça aos cidadãos. Eles têm como demanda a orientação das pessoas em relação a processo em andamento, mediação de conflitos, encaminhamentos e aconselhamentos. Toda a estrutura foi pensada para minimizar os transtornos. Os banheiros químicos, chuveiros e espaços para lavagem de roupas estão espalhados pelos abrigos de forma a descentralizar as pessoas e facilitar o uso dos mesmos. A alimentação é servida três vezes por dia, e em dias intercalados é distribuído ainda um lanche durante a tarde.

Crianças são maioria nos abrigos

Pensando no bem-estar das crianças durante os dias em que estão vivendo em abrigos dezenas de atividades estão sendo desenvolvidas (Foto: Angela Peres/Secom)

Pensando no bem-estar das crianças durante os dias em que estão vivendo em abrigos dezenas de atividades estão sendo desenvolvidas (Foto: Angela Peres/Secom)

Pensando no bem-estar das crianças durante os dias em que estão vivendo em abrigos dezenas de atividades estão sendo desenvolvidas. Os abrigos seguem uma agenda diária recheada de atividades. São exibições de filmes, prática de esportes, brincadeiras tradicionais, aulas de capoeira, dança. E também momentos de pintura, desenho, colagens e jogos de mesa.

Também neste serviço é marcante a presença de voluntários. Servidores de todas as secretarias municipais e estaduais estão envolvidos na missão de tornar mais leves os dias das crianças e dos adultos que deixaram suas casas por causa da cheia do Rio Acre. Há dezenas de serviços sendo executados por voluntários para as vítimas da enchente na capital. Cerca de 400 cidadãos se candidataram e estão doando tempo, atenção e distribuindo solidariedade.

Os abrigos seguem uma agenda diária recheada de atividades (Foto: Gleilson Miranda/Secom)

Os abrigos seguem uma agenda diária recheada de atividades (Foto: Gleilson Miranda/Secom)

“Minhas filhas mal acordam é já querem sair pra brincar. Elas não sabem direito o que está acontecendo, e por isso estão adorando, pensam que estão de férias”, conta a mãe Aurilene.

As crianças de zero a quatro anos recebem fraldas, leite em pó e massa para mingau. Estes itens são sendo doados por populares através do Acre Solidário. “Só temos a agradecer a atenção que o governo está dando às crianças. Estão fazendo o máximo que podem, e dando conta do recado, porque é muita coisa que precisa ser feita”, salientou Ivan Paiva de Souza.

Atendimento médico é serviço prioritário

Vários profissionais de saúde estão presentes nos abrigos executando ações de orientação, atendimentos e medicação. Um Centro Médico e outro Odontológico foram montados para atender urgências e emergências. A maioria dos casos atendidos estão relacionados aos problemas respiratórios, principalmente em crianças, diarreias e vômitos, além de casos suspeitos de dengue. Adultos que fazem acompanhamento constante devido a diabetes e hipertensão também têm procurado a unidade de saúde.

“Realizamos uma média de 450 atendimentos por dia. A atenção deve ser constante. Muitos tiveram contato com a água do rio antes de sair de casa. Também estamos orientando as famílias em relação aos cuidados com a higiene”, destacou a coordenadora do Centro Médico, Alexandra Luzia de Assis. Uma sala foi estruturada para a realização de procedimentos médicos, como nebulização e reidratação. Os casos mais complexos são encaminhados à Unidade de Pronto Atendimento (UPA). “O atendimento médico é importante. Minhas filhas já foram atendidas, e posso elogiar este serviço”, disse a moradora do bairro Baixada da Habitasa, Priscila Neri. 

Major reformado do Exército destaca qualidade dos abrigos de Rio Branco

Major reformado do Exército Brasileiro, Djalma Belmont, está em Rio Branco desde o dia 28 de fevereiro (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Major reformado do Exército Brasileiro, Djalma Belmont, está em Rio Branco desde o dia 28 de fevereiro (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Major reformado do Exército Brasileiro, Djalma Belmont, está em Rio Branco desde o dia 28 de fevereiro. Ele já percorreu os abrigos públicos para conhecer o trabalho que vem sendo realizado pelo governo do Estado e prefeitura com as famílias que foram atingidas pela enchente. Belmont já atuou como voluntário no socorro às vítimas do terremoto do Haiti e do tsunami no Japão. No Brasil esteve presente durante os desastres naturais registrados nas enchentes do Alagoas, Piauí e na região serrana do Rio de Janeiro.

“Cada desastre tem as próprias características e magnitudes diferentes. Mas aqui no Acre tive a grata surpresa de constatar a forma com que estas pessoas que estão nos abrigos são assistidas, a quantidade de serviços públicos que estão sendo prestados”, destacou o major. Ele fala ainda da estrutura, organização e gerenciamento dos abrigos. “O Acre tem condições de exportar esse conhecimento”.

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