Agricultores acreanos demonstram a força do espírito empreendedor

Agricultores acreanos demonstram a força do espírito empreendedor

Uma série Notícias do Acre - 20 de abril de 2017

Textos: Arison Jardim
Fotos: Arison Jardim, Sérgio Vale e Pedro Devani

Com o punho fechado, cheio de terra passando entre os dedos, mais um agricultor desperta atestando a qualidade do solo da pequena propriedade onde escolheu viver.

Nos próximos dias, a agência Notícias do Acre trará para o leitor uma série de matérias que contam a história de diversas famílias produtoras. Representando o espírito empreendedor da gente acreana, agricultores de mão cheia contam suas trajetórias e como planejam um futuro farto e justo para seus familiares e amigos.

Os personagens da série são cultivadores das regiões do Juruá e Tarauacá/Envira, locais que por muitos anos estiveram praticamente isolados da capital acreana. Sem a BR-364 por quase um século, as cidades dessas áreas só tinham os transportes fluvial e aéreo, muito dispendiosos para a chegada de novas tecnologias e para o comércio de suas produções.

A força do produtor familiar

Uma força histórica na produção de alimentos no Brasil, a agricultura familiar, também chamada de campesinato, por anos foi subjugada e esquecida dos planejamentos públicos.

Depois de alguns anos recebendo apoio por parte do governo federal, a categoria se tornou responsável por 70% da produção de alimentos no país. No Acre, o governo estadual também garante apoio expressivo aos pequenos produtores, seja na produção de farinha de mandioca, cultivo de coco, banana e outras frutíferas ou na criação de animais como suínos e aves. Já foram investidos mais de R$ 500 milhões na agricultura do estado.

Além da produção de alimentos, os campesinos exercem outras importantes funções no desenvolvimento do estado. Com a identidade amazônica presente em seus núcleos sociais e familiares, certificam o controle territorial e ambiental, produzindo com baixo impacto na natureza e ocupando as mais distantes localidades, ao longo de rios, estradas e varadouros (trilhas) por entre a floresta e cidades.

Maria de Nazareth Baudel, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na publicação “Agricultura familiar camponesa na construção do futuro”, da associação Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA), argumenta que suas histórias de vida, cultura e identidade, junto ao processo de ocupação do território, dão outros ares para a zona rural: “a agricultura familiar, realizada dentro ou fora dos grandes estabelecimentos, isto é, com pequenos proprietários ou agricultores sem terra, dá vida às áreas rurais, criando espaços comunitários, dispondo de certa estabilidade”.

De forte tradição seringueira e indígena, o espírito de luta de tais culturas ainda é forte entre os produtores. Com o curso da história seguindo, essa gente permanece na defesa da vida digna, suas tradições e o direito de produzir com qualidade e rentabilidade, mas agora, o patrão é a própria força de vontade.

O governo do Estado já investiu mais de R$ 500 milhões na agricultura do Acre, desde 2011. E para os próximos dois anos, vai investir mais R$ 137 milhões na produção familiar.

Produção de milho na Aldeia Pinuya (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Indígenas cultivam a tradição da agricultura na Amazônia

Existindo há apenas 44 anos, em uma área de 305 hectares, a comunidade transformou uma antiga fazenda degradada em uma florescente aldeia, com tradições e uma produção exuberante.

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Empreendedorismo renova agricultura do Juruá

“Produzir alimento é essencial, o mercado é garantido. Tomei essa atitude de ter meu próprio negócio porque eu sabia produzir”, conta Dedimar, nascido no Seringal Barão, em Mâncio Lima, também na região do Juruá, certo do caminho que tomou em sua vida.

Claudevir pode aumentar em 30% sua produção com o uso do moinho (Foto: Arison Jardim/Secom)

Criatividade aumenta produtividade na piscicultura

Nas margens da rodovia BR-364 e do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, é possível ver ao longe um moinho de vento de cor vermelha. Com grandes palhetas sempre rodando com a força que corre pelo ar, o objeto aponta para mais uma história empreendedora na produção familiar da região.

Francisco, produtor que utiliza a mucuna, em Feijó (Foto: Arison Jardim/Secom)

Produtores defendem o roçado sustentável e mostram benefícios

Tradicionalmente, a técnica mais usada para abertura de novas áreas para o plantio é a derrubada das árvores e o uso do fogo, com impacto negativo para o ambiente e para o solo. Contraponto a isso, uma nova tecnologia está ganhando adeptos: a adubação verde com o uso da mucuna, ou outras leguminosas forrageiras que corrigem o solo e serve como adubo, dispensando a queimada.

Depoimento: José da Silva (Nico) – Ramal Cachoeira, colônia São Francisco, Tarauacá

“Eu trabalhava de empregado e tinha o sonho de ter uma área para eu trabalhar. Quando cheguei aqui, o João Cobra e outros produtores mexiam com abacaxi e começou uma fama. Eu que trabalhava na diária, para os outros, pensei em investir nisso também. Comecei a gostar, produzi abacaxi de 13kg, fui ganhando um dinheirinho na época do verão e em 2015 ganhei o prêmio de R$ 1500 [concurso no festival de verão da Prefeitura de Tarauacá], e pronto comecei a me dedicar só no abacaxi e na banana.

Meu sonho é conseguir um fruto de 14 a 15kg. Agora só trabalho em lua certa: na lua cheia, na lua nova. Ajeito as mudas todinhas, quando chega naquela lua certa eu planto.

O povo fala que antigamente existia abacaxi de 15kg, 22kg e eu tenho essa vontade de chegar lá. Eu tento de tudo, capino, limpo. Outro meio que inventei foi cavar um buraco e encher de estrume. Se eu fizer tudo isso até setembro [entrevista gravada em julho] e não conseguir fruto desse tamanho, não posso dizer que os velhos estavam mentindo e sim que o tempo mudou.

Quando a gente planta na mata bruta, durante a lua errada, ele rola as cabeças todas. Aproveita só a muda. E se plantar na lua certa, mesmo em uma terra meio fraca, ele chega a 12 e 13 kg.

Durante o período do PAA [Programa de Aquisição de Alimentos, do governo federal], a gente faz a entrega para merenda escolar, e nos outros períodos vende no mercado municipal mesmo. Hoje, ninguém dorme mais sem comer. Se precisar, vai no açude alí, que foi construído com ajuda do governo [do Estado], pega um peixe ou mata um bacuri para comer.

Minha vida foi sofrida, fui criado pela mão dos outros, sem pai nem mãe. Trabalhei 12 anos de vaqueiro e vi que o negócio não estava bom para mim, trabalhava e não tinha nada. Está certo que aqui eu trabalho muito, mas estou vendo meu futuro.

Mesmo sendo analfabeto e pobre, essa é a melhor vida. Saber eu não tenho, por ser um agricultor eu estou satisfeito. O dia amanhece e é “pau quebrando” de trabalho, mas é com aquele sonho, de ter alguma coisa na minha vida.

Todo mundo que me conhece é por causa do meu produto, por isso cada vez que passa quero melhorar. Isso para mim é um prazer. Meu emprego é esse aqui, gosto de produzir.”

"Já estou há dois anos entregando no PAA. É um benefício muito bom, por o recurso é garantido e você pode planejar um investimento"
Marilos Gutschow, produtor de hortaliças em Cruzeiro do Sul

Assista aos vídeos e conheça mais sobre suas histórias

"O mel aqui é 100% natural"
Erivaldo Barbosa, produtor de mel em Cruzeiro do Sul, beneficiado com o programa de meliponicultura do Estado