Atendimento pedagógico domiciliar: um vínculo entre a escola e a família

Atendimento pedagógico domiciliar: um vínculo entre a escola e a família

Elciane Bezerra teve uma gravidez tranquila e nunca imaginara a missão que lhe aguardava com o nascimento do filho. Primogênito, há 14 anos Sávio Bezerra nascia com paralisia cerebral. Era o início de uma história de luta pela vida e pela garantia de direitos.

Abri mão de tudo na minha vida pra me dedicar exclusivamente ao meu filho, e pra mim, que sempre lutei pelos direitos dele, ver o ensino sendo levado a quem precisa em casa, dá um sentimento de vitória


Elciane Bezerra


Com um ano de idade, começou a ser acompanhado pela equipe do Dom Bosco, em Rio Branco. Aos seis anos, passou a frequentar a escola pública, até a mãe perceber a gravidade de um problema de coluna, que o impedia de permanecer sentado em sala de aula. Momento em que o ensino pedagógico domiciliar se fez necessário e resultou no fortalecimento do vínculo entre a escola e a família.

As aulas em casa são resultados de investimentos do governo do Estado, por meio da Secretaria de Educação e Esporte (SEE), aplicados diretamente na Coordenação da Educação Especial. Sávio é um dos 30 alunos atendidos por essa modalidade de ensino em Rio Branco, amparada por lei federal.

Com as aulas multidisciplinares em casa, Sávio hoje cursa o sétimo ano. A mãe, que afirma lutar até hoje contra o preconceito, se emociona ao falar do filho. “Sei que estudar em casa o obriga a não conviver socialmente. Mas aqui ele tem mais conforto e uma atenção especial. Abri mão de tudo na minha vida pra me dedicar exclusivamente ao meu filho, e pra mim, que sempre lutei pelos direitos dele, ver o ensino sendo levado a quem precisa em casa, dá um sentimento de vitória”, expressa.

Lição do aluno que ensina o professor

Era uma tarde de quarta-feira, quando o professor Alexsandro chegava para mais uma aula na casa de Sávio. O tema do encontro era o folclore brasileiro. A ajuda para manter os olhos do aluno vidrados no professor veio de fantoches.

E eu sei quando uma aula minha faz diferença no dia dele, quando consigo deixá-lo feliz saio recompensado


Professor Alexsandro


A entonação da voz dava vida aos fantoches quando ria, criava a cena, ensinava. Toda aquela contação de história não apenas abordava mitos e lendas, mas revelava, sobretudo, o desafio de transmitir aquilo que levou horas do seu fim de semana para elaborar, especialmente para que o Sávio continue a querer estudar.

A dedicação parece dar certo. Do colchão em que Sávio permanecia deitado no chão da sala, algumas reações pareciam demonstrar o desejo de interagir, ou apenas dizer que estava feliz por mais uma aula. Motivo de comemoração: “eu busco uma forma de dar o meu melhor, porque, mesmo que ele não tenha condições de falar, sempre dá o melhor dele para me ouvir. E eu sei quando uma aula minha faz diferença no dia dele, quando consigo deixá-lo feliz saio recompensado”, revela Alexsandro.

Mais que participar de capacitações. Criar, inovar, dedicar tempo à confecção de material de apoio, exercitar a criatividade. Essa tem sido a rotina do professor, que descobriu a paixão pelo ensino especial num período em que passou a cuidar de crianças autistas.

Ao ser convidado para realizar o atendimento domiciliar, foi marcado por novas experiências que, segundo ele, coroaram seus oito anos de profissão com a maior lição que poderia ter na vida: que em apenas duas vezes por semana, um aluno é mais capaz de ensinar com sua superação, do que um professor poderia ensiná-lo em cinco dias numa sala de aula com a didática convencional.

Certamente, Sávio nunca entendeu tanto dos mistérios da floresta quanto naquele dia em que os fantoches deram vida aos personagens João e Maria. Tão certo quanto o professor Alexsandro aprendeu com o sorriso de Sávio, que sempre terá motivos para planejar com tamanho esmero mais um dia de aula.

Série sobre o Núcleo de Educação e Tecnologia Assistiva

Toda criança tem o direito à educação pública, assegurado pelo artigo 205 da Constituição Federal e reafirmado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, mediante a Lei n° 02/2001. O referido artigo infere a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. Também compete ao Estado o atendimento educacional especializado a portadores de deficiência, preferencialmente no ensino regular.

No Acre, os investimentos em políticas públicas educacionais têm sido no sentido de cumprir as leis e diminuir as fronteiras de educação de qualidade para todos. Como resultado de mais uma conquista para o ensino especial no estado, o governo está investindo quase 2,5 milhões na construção do Núcleo de Educação e Tecnologia Assistiva (Neta).

A série a seguir aborda parte do trabalho desenvolvido pela equipe que integra a educação especial em Rio Branco e do público beneficiado por esses investimentos.

Texto de Rayele Oliveira || Fotos de Angela Peres || Diagramação de Adaildo Neto