Aulas na prisão reacendem esperança de mudar de vida

Aulas na prisão reacendem esperança de mudar de vida

Texto de Mágila Campos || Fotos de Arquivo SECOM/AC || Diagramação de Adaildo Neto

Rio Branco, 6 de maio de 2018

Em uma manhã de quinta-feira, Gilson Cavalcante e José Willian assistem, atentos, ao professor de matemática ensinar a equação de segundo grau para a turma. Na sala ao lado, Ariel Mayllon espera ansioso a professora de português chegar à sala.

Aulas são ministradas na escola que funciona dentro do presídio (Foto: Júnior Aguiar)

O episódio poderia ser de um dia comum em uma escola de ensino básico, não fosse por um detalhe: as aulas estão sendo ministradas dentro de uma penitenciária no Acre, na cidade de Senador Guiomard.

E os três são presidiários e estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino ofertada pela Secretaria de Estado de Educação e Esporte (SEE) para alfabetizar pessoas que não estudaram na idade certa.

Na unidade penitenciária onde eles estudam, são atendidos 54 alunos, divididos no ensino fundamental I e II e ensino médio.

Mais Direitos, Menos Grades

Os estudantes que tiveram suas vidas cruzadas dentro de um sistema penitenciário têm outras situações em comum: eles foram vencedores, em 2017, do Concurso de Redação da Defensoria Pública da União (DPU), competição nacional voltada às pessoas em situação de privação de liberdade no Brasil.

José Willian ganhou em primeiro lugar em um concurso de redação nacional (Foto: Júnior Aguiar)

José Willian ficou em primeiro lugar, Ariel, em segundo e Gilson, em terceiro, em um concurso que tinha como tema “Mais Direitos, Menos Grades”. Foram 6.607 redações inscritas, sendo 5.044 de estudantes internos do sistema prisional brasileiro. O concurso foi dividido em cinco categorias e os acreanos venceram na quarta, que é para os candidatos privados de liberdade.

Conquistas que reacenderam as esperanças dos estudantes de transformar suas vidas por meio da educação. Hoje, todos sonham em sair do regime fechado e fazer uma faculdade para seguir profissões dignas e honestas do lado de fora das grades.

O recomeço por meio da educação

“Isso aqui foi um erro de caminho, mas eu estou vendo que ainda posso retomar o caminho certo. E a educação vai me ajudar nisso, porque o mundo é muito cruel com ex-presidiários, mas através da educação a gente pode mudar tudo”, conta Gilson.

Para Ariel, ter aula na penitenciaria representa a oportunidade de recomeçar. “Eu tinha largado tudo, larguei meus estudos com 14 anos de idade, e agora é uma chance de retornar não só para a sociedade, como para minha família”, diz.

As aulas na prisão ajudaram os reeducandos se destacar em nível de Brasil (Foto: Júnior Aguiar)

E para conseguir se inserir de volta no convívio social ele aposta na educação. “Prova disso é a redação que eu passei. Porque graças ao ensinamento da minha professora eu passei em um concurso que tinha mais de cinco mil presos. O resultado me fez sentir que tinha capacidade, que o que eu almejar tenho capacidade de conseguir”, desabafa.

José, que ainda vai passar alguns anos presos e ficou em primeiro lugar na redação, já tem até projetos futuros. “Por isso que é bom escolas dentro dos presídios, porque o tempo que eu ainda vou passar aqui vai dá para terminar o ensino médio e fazer o Enem, porque pretendo fazer Letras ou Medicina quando sair daqui.”

Amparo estatal

Os sonhos dos três estudantes são na opinião dos professores, que lecionam no local, o que os impulsionam a transformar suas histórias e mostram a importância da educação em espaços prisionais.

Estabelecimento de ensino do local tem estrutura semelhante à das escolas de ensino regular (Foto: Júnior Aguiar)

“A educação aqui é o fio condutor que eles têm para mudar de vida, como é pra quem tá lá fora, mas aqui é mais forte, por que é tudo que eles têm, e sabem que isso trará mudanças profundas no pessoal, no social e no profissional”, destaca a professora Sâmia Lima.

Algo que segundo o professor Adalzemir Balica os estudantes têm consciência. “A educação nesse lugar é ainda mais importante do que lá fora, porque aqui a gente vê realmente a dedicação dos alunos para aprender. Eles não estão aqui apenas por estar, estão para aprender o que a gente tem a transmitir pra eles”.

Ferramenta de ressocialização

Prova disso é que a EJA já funciona no complexo há seis anos e em cada um deles foram atendidos em média 50 estudantes. “O sistema prisional não se resume só em manter o reeducando preso para cumprir sua pena, mas também em prepará-los, para que ele possa retornar a sociedade com mais instrução e qualificação”, ressalta o diretor do presídio.

Isso explica o fato de todas as iniciativas que são desenvolvidas na área educacional da rede pública sejam também aplicadas nos presídios. “Acreditamos que o caminho para essas pessoas mudarem de vida é através da educação, porque eu não vejo nenhuma forma de ressocialização que não seja por ela”, frisa a coordenadora de ensino do Instituto de Administração Penitenciaria (Iapen) do Acre, Helena Guedes.

Raquel Santos, coordenadora pedagógica da SEE, responsável por acompanhar as turmas da EJA, diz que o programa vem para qualificar, inspirar e elevar sonhos. “Aqui eles estudam o mesmo que estudariam em uma escola regular, recebem material escolar e didático, tudo porque o governo acredita que a grande arma de transformação é a educação.”

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