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Brava Gente

Brava Gente – Antônio Pedro, alegria e natureza na musicalidade seringueira

Onides Bonaccorsi Queiroz
05.03.2013 18:25

O músico acreano Antônio Pedro, que cultiva a tradição musical seringueira (Foto: Arison Jardim/Secom)

Músico acreano Antônio Pedro cultiva a tradição musical seringueira (Foto: Arison Jardim/Secom)

 

O acreano Antônio Pedro não concebe a vida sem natureza ou sem música. Nasceu no Seringal Bonsucesso, município de Feijó, numa família musical e foi criado na floresta. “Meu pai tocava e eu ‘era ali’, no mocotó dele”, conta. Percebendo o pendor do menino, que vivia cantando, o pai lhe conseguiu um violão. Sozinho, aprendeu a tocar e a afinar. E, desde então, também compõe. Hoje, além do violão, toca harmônica, rabeca, banjo e é mecânico de instrumentos.

Dos registros da infância e juventude, reporta os bailes no seringal: “No salão havia quatro bancos: o dos senhores, de frente para o das senhoras, e o dos rapazes, de frente para o das moças.” Lembra-se também de bebidas de que já não se ouve falar: “Havia a cocal, a jararaca, a canta galo [cachaças], o quinado imperial [vinho]…”

Para conter possíveis excessos, o código de convívio seringueiro contava com um recurso: “Havia um fiscal, que cuidava da harmonia da festa, para ninguém beber demais ou se comportar mal, sem ignorância nem bate-boca.” Isso fazia das comemorações um momento de descontração saudável entre as famílias. “A festa é para todos brincarem com alegria e com amor”, ensina seu Antônio Pedro, 72 anos, nascido Antônio José da Silva.

A premissa de que a vida deve ser uma celebração sempre foi uma tradição na família do potiguar José Pedro da Silva. Que seu filho Antônio Pedro cultivou com especial estima: “O pão de cada dia não faltava na minha casa. Nem a alegria. Eu me criei dentro dessa habitação desse grande pai que eu tive”.

Na floresta, conviveu também com o pajé Inácio Brandão Shanenawa, “que viveu 115 anos”, ensinou-lhe sobre as dinâmicas da natureza, o poder curativo das plantas e, ainda, ministrou-lhe, pela primeira vez, a ayahuasca, bebida sacramental amazônica.

A experiência teve especial influência sobre a produção musical de Antônio Pedro. Inspirado em suas visões e compreensões místicas, criou um ritmo e batizou-o de “enverseios”. Ele explica o conceito: “É a melodia entremeada de versos que falam sobre a sabedoria da floresta”.

Acompanhando a música e a espiritualidade, muito trabalho braçal. E Antônio Pedro tornou-se seringueiro como o pai: “Puxei a casca da seringa 42 anos”.

 

Seu Antônio Pedro com Dona Carmem, uma parceria afetiva e musical (Foto: Arison Jardim/Secom)

Seu Antônio Pedro com Dona Carmem, uma parceria afetiva e musical (Foto: Arison Jardim/Secom)

 

Aos 22 anos conheceu Carmem Almeida da Silva, que tinha apenas 15. A moça também cantava e tocava violão. Resultado: uma parceria afetiva e musical, que gerou 11 filhos e que em agosto completará 50 anos. “É uma grande guerreira, uma grande companheira. Se eu fizesse um tapiri no seringal, ela ia ‘mais eu’”, diz Antônio Pedro, satisfeito com o apoio incondicional da esposa.

O casal se lembra com alegria da iniciação musical transmitida aos filhos: “Pegava os meus meninos e fazia uma rodinha de música e dança, eu ficava feliz em ver as crianças brincando e se divertindo”, diz, entre sorrisos, seu Antônio Pedro.

Em 2007, Alexandre Anselmo, músico e pesquisador paulista radicado em Rio Branco, “descobriu” Seu Antônio Pedro e Dona Carmem. “Vi que era uma expressão cultural muito rica, típica do seringal”, conta. E passou a divulgar e promover o trabalho da dupla e demais músicos integrados, a Banda Uirapuru.

Alexandre conta que os universitários foram o primeiro público a recebê-los. E que a reação dos espectadores, até hoje, é frequentemente de nostalgia: o estilo do baque, do enverseio, da cana verde, do xote, da mazurca, da marcha e demais ritmos que o grupo toca emociona porque remete aos antepassados dos ouvintes, pais ou avós. Alguns chegam a chorar de saudade, lembrando o relato dos mais velhos.

Apesar de se sentirem bem recebidos pelo público e de já terem se apresentado diversas vezes ao longo dos anos, atualmente Seu Antônio Pedro e banda não têm qualquer show marcado.

Já gravaram três  CDs: Passo da Natureza (2010), Baile do Seringueiro (2010) e Baque do Acre (2012), este com “Seu Bima” (Abismar Gurgel), outra figura lendária do universo musical seringueiro. São vendidos na Casa do Artesão do Novo Mercado Velho, em Rio Branco. Ainda, Alexandre reporta outro dado importante sobre a dimensão da obra do músico: “Ele tem composições para uns 30 CDs”.

 

“A gente vive aprendendo, morre aprendendo e nunca deixa de aprender”, diz seu Antônio Pedro (Foto: Arison Jardim/Secom)

“A gente vive aprendendo, morre aprendendo e nunca deixa de aprender”, diz seu Antônio Pedro (Foto: Arison Jardim/Secom)

 

Em algumas horas de conversa, observa-se que seu Antônio Pedro não é uma pessoa comum. Impressiona qualquer ouvinte atento verificar o manancial inesgotável de histórias, de conhecimentos sobre a floresta, suas dinâmicas e processos, além do cabedal musical que possui, tudo apresentado com franqueza e doçura. É um devoto da natureza e da cultura que o formou.

Mais encantador ainda é perceber o quanto esses saberes tão expressivos estão integrados dentro de sua consciência. Com simplicidade, ele faz afirmações profundas e significativas, que dão muito o que pensar e sentir: “Todos os sons vêm da Mãe Floresta”.

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Para saber mais:

www.enverseios.blogspot.com.br

www.baquemirim.blogspot.com.br{/xtypo_rounded2}

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