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Carta Xapuri honra as memórias e o legado de Chico Mendes

Maria Meireles
17.12.2018 17:58

As ideias revolucionárias do humanista e ambientalista acreano Chico Mendes são a base das políticas públicas de desenvolvimento sustentável no mundo. O movimento que liderou com outros companheiros e companheiras na década de 80 resultou na criação das reservas extrativistas no Brasil, entre outras conquistas.

Durante três dias, 15 a 17, mais de 500 ativistas de vários lugares da Amazônia, do Brasil e do planeta contribuíram com o “Encontro Chico Mendes 30 anos: Uma Memória a Honrar. Um Legado a Defender”, promovido na cidade natal do líder sindicalista.

A atividade histórica resultou na criação da Carta Xapuri – manifesto construído coletivamente para reafirmar o compromisso com a defesa da Amazônia, das populações que nela vivem e impulsionar o pacto de gerações entre as lideranças do ontem, hoje e do amanhã.

Filha do líder ambientalista, Angela Mendes coordena o Comitê Chico Mendes (Foto: Gleilson Miranda/Secom)

Emocionada, Angela Mendes, filha de Chico e coordenadora do Comitê Chico Mendes, agradeceu o empenho de todos os homens e mulheres que acreditam numa sociedade com equidade de gênero, justiça social e ambiental, legado de luta que herdou do pai.

“Conheci meu pai por meio dos amigos, amigas, companheiros e companheiras que lutaram com ele e que consolidaram esse movimento. Quando o assassinaram, eu ainda era muito jovem e nem entendia tudo isso. E é assim, juntos, que mantemos a memória de Chico viva, compartilhado histórias e encabeçando suas lutas e sonhos por um mundo justo. Chico, vive!”, ecoou Angela Mendes em meio aos aplausos e gritos de resistência no encerramento do encontro.

Nesses três dias, Xapuri foi palco de um encontro que reuniu extrativistas, produtores e produtoras, indígenas, gestores e gestoras públicas, lideranças renomadas do movimento social, sociedade civil, sindicalistas, jornalistas e ativistas para discutir o legado e a continuidade das políticas públicas de desenvolvimento sustentável social, mediante os cenários políticos de retrocesso.

Zezé Weiss, jornalista socioambiental e organizadora do evento, destacou a relevância do evento. “Esse é um momento de celebração, de saudade, mas, sobretudo, de esperança. Porque a partir desse encontro de gerações nasceram as sementes da resistência, que sobreviverão aos tempos difíceis que se aproximam.”

Como forma de reconhecer a contribuição de milhares de Chico Mendes espalhados no mundo, o Conselho Nacional de Populações Extrativistas (CNS) homenageou 30 líderes ambientalistas que, acompanhados de outras 30 jovens sonhadores, foram aplaudidos, demonstrando que os empates continuarão até quando forem necessários.

Entre lágrimas de saudade e alegria por tudo que já foi construído, Joaquim Belo, presidente do CNS, reafirmou a aliança entre os povos. “Saímos daqui renovados para continuar na luta. Com bem diz o Dom Moacyr, o mundo não é lugar para descanso. Ninguém solta a mão de ninguém.”

“Ninguém solta a mão de ninguém!”, “Chico, vive!” (Foto: Gleilson Miranda/Secom)

A Carta Xapuri foi declamada pela atriz, ativista socioambiental e amiga de Chico Mendes, Lucélia Santos. As palavras deram vida aos sentimentos de todos os homens e mulheres, que na praça de Xapuri, selaram o compromisso de continuar “lutando para salvar a humanidade”.

Emanados pelo senso de justiça e resistência, os participantes encerram o Encontro Chico Mendes 30 anos clamando em uma só voz: “ninguém abandona a defesa dos povos da floresta!”, “ninguém desiste do legado de Chico Mendes!”, “ninguém solta a mão de ninguém!”, Chico, vive!”

Confira a Carta Xapuri na Íntegra

“Querido Chico,

Nesta semana, do dia 15 ao dia 17 de dezembro, nós, mais de 500 pessoas de todas as partes do Acre, da  Amazônia, do Brasil e do planeta, nos reunimos na sua cidade de Xapuri-Acre para honrar sua memória e defender seu legado, nos 30 anos de sua ausência física dos espaços deste mundo.

Vivemos momentos de muita saudade e de muita emoção, Chico! Aqui estiveram seus companheiros seringueiros e suas companheiras de empate; de longe, vieram representantes de comunidades extrativistas de todos os  biomas brasileiros; chegaram seus amigos de fora da floresta, do Brasil e do exterior; apareceu gente que conviveu com você, e também muita gente nova, movida pela força de seus ideais.

Durante três dias, refletimos muito sobre o sentido daquela sua  sábia fala que imortalizou a sua visão estratégica sobre o futuro do nosso planeta: “No começo, eu pensei que estava lutando para salvar as seringueiras; depois, pensei que minha luta era para salvar a floresta amazônica; agora, percebo que estou lutando para salvar a humanidade.” Com certeza, Chico! Sua luta foi além… muito além de você mesmo.

Só mesmo você, Chico, para fazer acontecer, nesse tempo amazônico de poucos voos e muitas chuvas, esse nosso diálogo tão profundo, que por inspiração sua, nos faz seguir lutando por um modelo de desenvolvimento sustentável que nos livre das mazelas da depredação ambiental e da contaminação das águas, do solo e do ar que respiramos. Só você mesmo para nos fazer seguir lutando por uma sociedade mais justa, mais solidária e mais igualitária; por esse outro mundo que acreditamos ser ainda possível!

Só mesmo você, Chico,  para nos fazer seguir sonhando ante os retrocessos que se anunciam já nas primeiras decisões de um governo eleito que ainda nem tomou posse e já retira do Brasil o direito de sediar a próxima Conferência do Clima, já declara guerra aos sindicatos, às organizações da sociedade civil, aos movimentos sociais, aos direitos conquistados pela juventude, pelas mulheres, pelos povos indígenas, pelas comunidades quilombolas, ribeirinhas, extrativistas, pelos povos da floresta e por todas as populações tradicionais do Brasil.

E por falar em juventude Chico, você deve estar feliz com a decisão que seus companheiros e companheiras do CNS tomaram de fazer deste Encontro um momento de compartilhar conhecimento e de transferência geracional. Assim como você sonhou um dia, mais da metade das pessoas que aqui estão são jovens. São jovens que vieram para firmar compromisso com a defesa do seu legado para os próximos 30 anos!

Infelizmente “a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte”, registrada por você em sua mensagem aos jovens do futuro, datada para  6 de setembro de 2120, é ainda tristeza constante em nossos dias. Os números são alarmantes, companheiro Chico: a cada cinco dias uma companheira ou um companheiro seu, e nosso, é assassinado no Brasil.

Somente no ano de 2017, foram registrados mais de mil conflitos por terra, água ou trabalho nos campos e nas florestas do nosso país. Nos últimos 12 meses, foram ao menos 70 mortes. A última delas foi a do companheiro Gilson Maria Temponi, em Placas, no Pará. Imagina Chico, mais uma morte quando já estávamos aqui reunidos para honrar sua memória, nos 30 anos do seu assassinato, na porta dos fundos de sua casa, no dia 22 de dezembro de 1988, pelas balas traiçoeiras de uma espingarda disparada a mando do latifúndio.

Mas nem tudo é tristeza! Com grande alegria, aqui celebramos o seu legado. A luta de seus companheiros e companheiras transformou as Reservas Extrativistas! Aquela proposta de uso comum e coletivo das áreas de floresta pelas populações extrativistas que você apresentou no I Encontro Nacional dos Seringueiros, realizado em 1985, em Brasília, cresceu, tornou-se política pública, não só na Amazônia, mas também nos outros biomas brasileiros.

Hoje são milhares de famílias, vivendo em milhões de hectares de áreas protegidas. E  nessas áreas, ainda que falte muito, além da produção extrativista, já existe escola, posto de saúde, luz elétrica, e em muitos casos até internet! Só que agora, companheiro Chico, os novos governos e o parlamento eleitos ameaçam entregar as terras sob nossa guarda, que garantem a sustentabilidade da nossa economia e do nosso modo de vida ao agronegócio, às madeireiras e à mineração.  Esquecem que os serviços ambientais que prestamos beneficiam não só a nós, mas a todos os povos do mundo.

Tomara, companheiro Chico, que as conquistas desse seu legado, resultado da nossa resistência nessas últimas três décadas, das alianças que você tão generosamente construiu com os mais variados parceiros da floresta e de fora dela, sensibilizem os corações e mentes de quem está chegando ao poder para continuar respeitando e trabalhando junto aos nossos povos da floresta, em defesa de nossos territórios, da conservação ambiental e dos direitos sociais do povo brasileiro.

Oxalá, companheiro Chico, aqui mesmo, nas barrancas do Rio Acre, nessa sua amada terra de Xapuri, no coração da floresta amazônica, a juventude do ano 2120 possa estar reunida numa auspiciosa Semana Chico Mendes, para celebrar a força da luta que carregamos juntos com nosso povo, das matas, do sertão, do mar,  dos rios e das florestas; para comemorar a união de todos povos em torno dos ideais que você nos legou e da revolução planetária que a medida do tempo não te permitiu viver, mas que você teve o prazer de ter sonhado.

Ninguém abandona a defesa dos povos da floresta!

Ninguém desiste do legado de chico mendes!

Ninguém solta a mão de ninguém!”

Xapuri, Acre, 17 de dezembro de 2018

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