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Chico rei seringueiro

Elson Martins
22.12.2017 9:08
Atualizado 22.12.2017 às 14:50

Aos 5 anos de idade ele já acompanhava o pai, que tem o seu nome – Francisco Alves Mendes, – em caminhadas pela mata. Aos 9, cortava seringa e produzia borracha. Aos 44, no dia 22 de dezembro de 1988, foi morto no quintal de sua casa, de tocaia, pelo peão Darci Alves, por defender a floresta e os que vivem nela.

Faz 29 anos que sua morte abalou e empobreceu o mundo.



Chico Mendes nasceu no seringal Porto Rico, em Xapuri (Acre), em 15 de dezembro de 1944. Os pais moravam na colocação Bom Futuro. Em 1955 a família mudou-se para o seringal Equador, colocação Pote Seco, próximo ao seringal Cachoeira. Lá, aos 18 anos, ele conheceu Euclides Távora, a pessoa que o iniciou na educação ensinando-lhe a pensar sobre injustiças sociais.

Euclides era comunista, ex-militante da coluna Prestes que se refugiara numa colocação vizinha, a três horas de caminhada pela mata. Chico passou a visitá-lo nos fins de semana para ouvir rádio (a pilha) e ler jornais, com orientação do novo amigo, através do qual, aprendeu como os ricos e poderosos exploravam as famílias trabalhadoras do meio rural e da cidade. E como os seringueiros eram cruelmente explorados por seringalistas.

Em 1965 Euclides Távora adoeceu, viajou em busca de tratamento e Chico nunca mais o viu. Entretanto, estava decidido a colocar em prática as lições do socialista para melhorar a vida dos companheiros da floresta. Chico sabia que o que os militares planejavam para a Amazônia não era bom para os seringueiros do Acre. De fato, os militares tentaram desenvolver a Amazônia com grandes fazendas, desmatando a floresta e substituindo o homem pelo boi.

Por iniciativa própria, a partir de 1971, ele organizou um grupo de alfabetização e passou a discutir a criação de cooperativas para conquistar a autonomia dos seringueiros.

Em 1975, ao saber que a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) iniciara a organização do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, foi para o município e tornou-se secretário-geral da entidade, que nasceu muito combativa sob a direção de Wilson Pinheiro.

De 1975 a 1990 aconteceu o que pode ser chamada de segunda revolução acreana



Cerca de 5 milhões de hectares (um terço da floresta acreana) estavam sendo adquiridos (com os seringueiros dentro) pelos novos patrões recém-chegados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O conflito entre seringueiros e pecuaristas se instalou na região e os Povos da Floresta organizaram os “empates” contra as derrubadas.

De 1975 a 1990 aconteceu o que pode ser chamada de segunda revolução acreana. Desta vez, comandada por seringueiros, posseiros, ribeirinhos e índios contra fazendeiros, grileiros e madeireiros. Estes, com a conivência de policiais, membros da justiça, políticos elitistas, cartórios, bancos e funcionários federais intensificaram as ações violentas contra o movimento dos seringueiros. Em julho de 1980, Wilson Pinheiro foi assassinado e Chico Mendes assumiu o comando do movimento através do Sindicato de Xapuri.

O novo líder conquistou aliados para a resistência acreana na cidade, no país e até no exterior. Em 1985 criou o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que colocou em discussão temas como reserva extrativista, exploração comunitária e racional da biodiversidade amazônica, unidades de conservação, demarcação de áreas indígenas, estudos de impacto ambiental nas estradas e outros projetos abertos na região.

Chico Mendes ganhou prêmios nacionais e internacionais e institucionalizou os “empates”. Sob sua liderança foi concretizada a união dos Povos da Floresta que sepultou a histórica e secular divergência entre índios e seringueiros ou ribeirinhos. Esses avanços representavam forte ameaça aos interesses dos poderosos , por isso, Chico teve sua morte anunciada. O tiro que o atingiu no peito no dia 22 de dezembro de 1988 ecoou no mundo e o transformou num símbolo da luta social e ambiental da Amazônia.

Legado

A partir de 1989 foram criadas as Reservas Extrativistas onde os seringueiros permaneceram em suas colocações sem mais ameaças. A proposta tornou-se modelo de reforma agrária para a Amazônia Legal e outras regiões do país. Hoje os povos da floresta são libertos e defendem o desenvolvimento sustentável com base na exploração racional da biodiversidade amazônica. No Acre, mais de 50 por cento das terras estão protegidas por unidades de conservação e até os pecuaristas passaram a enxergar vantagens do manejo na exploração dos recursos naturais.]

Desde 1999, os ideais que Chico Mendes sonhou e ajudou a criar, são pautas de um governo verde inspirado em sua essência. O planejamento, a ciência, a tecnologia e sobretudo a tradição acreana orientam a construção de uma nova sociedade amazônica.

A família

A memória de Chico Mendes expressa a figura típica da Amazônia com origens dramáticas singulares. O pai, também chamado Francisco, tinha os pés tortos que lhe dificultavam andar. Era um homem ríspido, mas inteligente e contestador das regras do seringal. A mãe, Iracê engravidou 19 vezes e morreu de parto aos 42 anos. Após sua morte, Chico passou a cuidar dos cinco irmãos mais novos enquanto o pai, cansado e doente trabalhava apenas na agricultura de subsistência.

Chico casou duas vezes: a primeira, em 1969 com Eunice Feitosa de Meneses, no seringal Cachoeira, – com quem teve duas filhas: Ângela Maria e uma outra que não sobreviveu. O casal separou-se e em 1971, então Chico conheceu Ilzamar, a bela jovem do seringal Santa Fé que se tornou mãe de Elenira e Sandino. A família, apesar dos encargos de sindicalista que o mantinha afastado, era sua grande paixão.

O Acre é hoje o estado amazônico mais conhecido no mundo por praticar a economia de baixo Carbono, com apoio de bancos internacionais como BID e Bird (americanos) e KfW (alemão). Seu “desenvolvimento sustentável” se mantém com a inspiração de Chico Mendes, que continua vivo na memória dos povos que defendem o meio ambiente global.

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