Com qualidade, peixe acreano conquista mercado peruano

Com qualidade, peixe acreano conquista mercado peruano

Marta fala que os consumidores estão gostando da qualidade do peixe acreano (Foto: Arison Jardim/Secom)
Marta fala que os consumidores estão gostando da qualidade do peixe acreano (Foto: Arison Jardim/Secom)

Muito além do ceviche, a culinária peruana reflete toda a biodiversidade e história deste país vizinho, que compartilha tantas semelhanças com o Acre. Nos últimos cinco anos, o Peru foi escolhido pelo prêmio turístico mundial World Travel Awards como o melhor destino culinário. Os séculos de história de seu povo tradicional, somando-se aos anos de imigração e às recentes novidades globais, resultaram em uma cultura que entende o que é comer bem.

Este país, com esses pré-requisitos, está comprando peixe do Acre. O negócio começou em novembro do último ano, com uma carga inicial de 10 toneladas a cada dez dias, em média, comprados na Peixes da Amazônia, empresa baseada na aliança público-privada-comunitária, com participação da Agência de Negócios do Acre (Anac).

Nesta semana, a empresa peruana Impesco S.A. passou a comprar 20 toneladas de pescado no mesmo período, e se depender da fome de peixe dos peruanos, a tendência é aumentar.

Qualidade do Pescado

Em 2015, o Acre produziu mais de seis mil toneladas de peixes. Hoje, já exporta (Foto: Arison Jardim/Secom)
Em 2015, o Acre produziu mais de seis mil toneladas de peixes. Hoje, já exporta (Foto: Arison Jardim/Secom)

Desde a inspeção sanitária até o consumidor final, o pescado saído do frigorífico acreano é pedaço por pedaço avaliado. Todos esses olhares têm confirmado: o peixe é de muita qualidade, é bem tratado e conservado.

Erick Honorin Guzmán, gerente regional do Sanipes (Organismo Nacional de Sanidad Pesquera), órgão que inspeciona a entrada de pescados no Peru, atestou a qualidade depois da verificação, na cidade de Iñapari, fronteira com Assis Brasil: “Durante a inspeção encontramos os lotes de importação com as condições sanitárias excelentes para o que as normas peruanas exigem”.

Depois dessa primeira parada para os trâmites burocráticos fiscais de exportação, a carga segue por cerca de 230 quilômetros até seu destino, Puerto Maldonado. Na confluência dos rios Madre de Dios e Tambopata, a cidade tem moradores acostumados com pescados de água doce, em especial amazônicos. Alguns dariam ouro por pequenos bagres cascudos encontrado nos rios, mas já escassos na região.

Os rios com poucos peixes e a contaminação por mercúrio sendo uma dura realidade na região de Madre de Dios, que tem como capital Puerto Maldonado, tornam ainda mais atrativa a importação de pescado brasileiro. Em maio de 2016, o Peru declarou estado de emergência em 11 distritos dessa região ao detectar elevadíssimos níveis de mercúrio.

Ao chegar nos mercados e bancas por toda a cidade, os peixes acreanos são logo pesados e entregues aos mais diversos clientes. Uma hora após, em uma das movimentadas feiras, cerca de 500 kg dos peixes frescos já haviam acabado. Imediatamente a empresa já estava distribuindo mais, na mesma velocidade que os clientes buscavam o produto.

Marucha Catalam, gerente da Impesco, explica o motivo de tanta procura: “A Peixes da Amazônia nos manda um peixe muito bom. Nossos 40 clientes estão muito contentes com a qualidade do pescado. Amanhã vamos começar a distribuir às 4 horas da manhã os diferentes peixes que vieram, pintado, pirapitinga, tambaqui”.

Na feira, a receptividade é a melhor possível. “É saboroso e fresco este pescado”, afirma a vendedora Marta Soto, segurando um pintado que acabara de tirar da caixa com gelo. “La gente le gusta mucho, y es importante entregar un producto de calidad para su salud”, explica a feirante, em um espanhol que qualquer brasileiro poderia entender.

Mercado Internacional

Só em Puerto Maldonado o consumo de peixe pode chegar a 200 toneladas por mês (Foto: Arison Jardim/Secom)

Essa exportação que a Peixes da Amazônia está fazendo é pioneira. De forma organizada, com apoio do governo, por meio das secretarias de Indústria (Sedens) e de Agricultura Familiar (Seaprof), da Anac, o Acre organizou toda sua cadeia produtiva da piscicultura e tornou possível expandir o comércio para além do consumo local.

Hoje, a Peixes da Amazônia está em todo o território brasileiro e já se prepara para alcançar mais mercados peruanos. “Assim que acabar a Semana Santa, já começa um novo negócio, que passa a ser peixe filetado e congelado em pacotes de 1kg, de 450g e de 3kg. Esse é nosso mercado até o fim do ano. E já em 2018 vamos trabalhar com cortes mais nobres, específicos para clientes que vão desenvolver a gastronomia peruana, que é muito rica e que depende de muito peixe”, explica Jair Batalini, gerente de operações.

Essa rota Acre-Peru guarda muito mais possibilidades de desenvolvimento que se possa imaginar. Fred Bocangel, diretor de comércio exterior e relações internacionais da Câmara de Comércio de Madre de Dios, é grande defensor das relações comerciais e culturais entre o Acre e Madre de Dios, duas regiões semelhantes em suas vertentes amazônicas.

O próximo passo é vender cortes especiais para grandes cidades peruanas (Foto: Arison Jardim/Secom)

Fred acredita que o desenvolvimento dessa região de fronteira ocorre pela relação de comércio possibilitada pela Transoceânica, que segue até portos no Oceano Pacífico. “Poderíamos, Acre e Madre de Dios, ser operadores comerciais de toda oferta brasileira para o Peru ou para o oeste norte-americano, ou zona do Equador, Chile, entre outros. Assim como vice-versa, com as ofertas do Peru para o Brasil”, afirma o empresário, que leva à risca suas ideias, tendo uma casa em Epitaciolândia e outra em Puerto Maldonado.

Ele explica ainda, em números, o tamanho do mercado só para o peixe, que pode alcançar Cuzco e Lima, grandes cidades peruanas. “Só Madre de Dios, poderia consumir 200 toneladas por mês. Se incluirmos Puno, que está muito perto, há 600 quilômetros. Em Cuzco que já tem dois milhões de habitantes, então o mercado se multiplica por 20, poderíamos estar consumido 4 mil toneladas por mês. É um mercado com avidez de pescado!”, afirma.

Essa expansão já está começando. A empresa que atualmente compra o pescado da Peixes da Amazônia está levando parte de sua mercadoria para Mazuco, 166 quilômetros distante de Puerto Maldonado. Em breve, o país conhecido por sua excelente culinária poderá ter em todo seu território o peixe cultivado por famílias acreanas, realizando assim mais um passo para a integração tão sonhada da América Latina, região rica de culturas e sabores.

Texto e Fotos: Arison Jardim | Design: Adaildo Neto