Coronel Marcos Kinpara: o filho da dona Damiana

Coronel Marcos Kinpara: o filho da dona Damiana

Texto de Saulo Negreiros | Diagramação de Adaildo Neto | Fotos: Arquivo Pessoal e Acervo da Secom/AC

Rio Branco, AC, 19 de Janeiro de 2018

Como a maioria dos brasileiros que vencem na vida: acordam cedo todos os dias e batalham, em vez de apenas sonharem com o futuro, vêm de uma família humilde e, mesmo tendo que enfrentar os dissabores da vida, vencem. A história do novo comandante-geral da Polícia Militar do Acre (PMAC), coronel Marcos Kinpara, também não é diferente.

Nascido em Rio Branco, o filho da dona Damiana Mourão, o coronel Kinpara ou, simplesmente, o “Marquinhos” – nome pelo qual é chamado carinhosamente pela mãe, o pai e parentes mais próximos -, desde cedo já estava convicto de que somente os estudos poderiam proporcionar-lhe uma perspectiva melhor de vida.

“Quando tinha 13 anos, mesmo com os afazeres da escola, sempre me ajudava nas vendas. Era meu contador. Para sustentá-lo, vendia roupas, perfumes, sempre dava um jeito. Queria ver meu filho vencer! Hoje tenho tanto orgulho de ver o que ele se tornou, que não cabe em mim”, disse dona Damiana, ao lembrar-se das dificuldades passadas quando Marcos Kinpara ainda era criança.

Filho da Baixada da Sobral, bairro onde residiu por 15 anos, nunca escondeu suas origens. O militar sempre se mostrou muito dedicado aos seus propósitos e valores: ter uma vida digna, optar pela honestidade. De lá, da “Baixada”, ganhou o mundo!

Quando tinha 13 anos, mesmo com os afazeres da escola, sempre me ajudava nas vendas. Era meu contador. Para sustentá-lo, vendia roupas, perfumes, sempre dava um jeito. Queria ver meu filho vencer! Hoje tenho tanto orgulho de ver o que ele se tornou, que não cabe em mim


Lembra dona Damiana Mourão

O amigo dedicado

Na adolescência, segundo seu amigo de infância e vizinho de bairro, o jornalista Senildo Melo, enquanto muitos iam brincar ou até mesmo optavam pelo cometimento de crimes, Marcos seguia firme, focado. Não faltava uma aula na escola Serafim Salgado. Além de aprender com certa facilidade as matérias, ainda ajudava os demais colegas de classe a assimilar as disciplinas. “Das várias vezes que chamava Marcos para jogar bola, ele apenas dizia: ‘Vai indo, vou só resolver minhas tarefas de casa e já apareço lá’. E, como sempre, nada de ele aparecer.”

Marcos Kinpara segurando sua primeira filha, no início da carreira na Polícia Militar (Foto: Arquivo Pessoal)

No decorrer de sua jornada, Kinpara começou a somar seus títulos acadêmicos, entre eles a graduação em Letras Inglesas pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e os bacharelados em Segurança Pública pelo Centro de Ensino da Polícia Militar da Paraíba (já na Polícia Militar) e em Direito pela Faculdade da Amazônia Ocidental (FAAO).

Ao recordar as dificuldades da época, das condições e expectativa de vida que tinha no período, Senildo cita o amigo como uma pessoa que nunca deixou de perseverar e sempre valorizou suas “raízes”. “Kinpara sempre foi um cara muito focado, abnegado e amigo, acima de tudo. Chegou com muito mérito ao posto que hoje ocupa: no Comando-Geral da PM”, ressaltou o parceiro de futebol na infância.

O acreano que fez história

Já na vida militar, Kinpara somou diversos cursos em seu currículo, entre eles os realizados fora do Brasil: Info-Communication (comunicações informatizadas), realizado no Japão, Special Operations Research and Development (Pesquisa e Desenvolvimento de Operações Especiais), realizado na Carolina do Sul, Estados Unidos, Combat Shooting (tiro de combate), Law Enforcement (Gestão em Segurança Pública) e Vip Protection (Proteção VIP), todos realizados na Flórida, também nos Estados Unidos.

Kinpara esteve durante seis meses nas Forças de Paz da ONU no Sudão do Sul, no Continente Africano (Foto: Arquivo Pessoal)

Isso era apenas o início de uma longa trajetória, daquele que faria história: o primeiro policial militar a atuar em uma missão de Paz pelas Organizações das Nações Unidas (ONU).

Depois de um difícil processo seletivo e posterior preparação de quatro meses no estado do Rio de Janeiro, enfim, o primeiro sonho realizado: a convocação para trabalhar nas Forças de Paz da ONU, no Sudão do Sul. “Para mim, essa é uma realização de vida. Sempre quis participar de algo assim. Não foi fácil, mas hoje realizo este sonho.”, disse na época.

O retorno ao Acre

Coronel Kinpara e a sargento Diemes Miguéis são recebidos pelo governador para apresentar o esquema de segurança da passagem da Tocha Olímplica, em 2016 (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Após seis meses no continente africano, o militar retorna aos braços de sua família e à sua casa. Dessa vez, trouxe na “bagagem” uma experiência que poucos poderiam ter: operar em uma zona de conflito urbano e de guerra. “Lá, há uma guerra incessante por petróleo, minérios, drogas e, sobretudo, por causa das desigualdades socais. À frente do comando de contingentes dos policiais brasileiros no Sudão do Sul, nossa missão era manter a paz dentro da base da ONU, com a realização de um forte trabalho em segurança pública”, lembra Kinpara.

O reconhecimento profissional

Já no estado, após o cumprimento da missão pela ONU, o militar acreano esteve à frente do planejamento de segurança durante a passagem da Tocha Olímpica no Acre, em 2016, evento no qual comandou homens da Força Nacional, Polícia Rodoviária Federal, PM e Polícia Civil.

“Tarefa fácil”, se compararmos à missão no Sudão do Sul e às duas décadas de carreira à frente de batalhões da capital e do interior, da Companhia de Trânsito (Ciatran) e do Comando de Policiamento Operacional I (CPO-I), função responsável por todo o policiamento da capital e outras cinco cidades do interior.

Comandante-geral da PMAC e a filha mais nova, no dia da solenidade oficial de passagem de comando (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Antes de assumir o comando da PMAC, Kinpara ainda exerceu a função de secretário adjunto de Gestão Operacional de Estado de Segurança Pública.

“Para quem queria apenas ser um cabo da Polícia Militar e, hoje, ter chegando no topo da carreira enquanto oficial, é uma bênção de Deus e uma responsabilidade muito grande. Junto com essa nossa missão vem a missão de comandar mais de quatro mil homens, da ativa e da reserva, e, claro, de forma estratégica e operacional, deflagrar ações de combate à criminalidade”, ressaltou.

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