Criatividade aumenta produtividade na piscicultura

Criatividade aumenta produtividade na piscicultura

Nas margens da rodovia BR-364 e do Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, é possível ver ao longe um moinho de vento de cor vermelha. Com grandes palhetas sempre rodando com a força que corre pelo ar, o objeto aponta para mais uma história empreendedora na produção familiar da região.

Claudevir Alves de Souza, nascido em um seringal em Porto Walter, cidade também na região do Juruá, herdou do pai as habilidades de ferreiro e da carpintaria. Trabalha diariamente em um pequeno estaleiro próximo à balsa entre Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul, enquanto conserta embarcações coleta material para seus moinhos de vento.

Claudevir pode aumentar em 30% sua produção com o uso do moinho (Foto: Arison Jardim/Secom)

Seguindo sua cultura de beira do rio, Claudevir sempre gostou de pescar. Com o passar do tempo, foi percebendo que os peixes estavam ficando mais escasso e mais distantes pelos rios e igarapés, então resolveu fazer dois açudes para praticar a pesca em casa. Os peixes foram aumentando e logo descobriu uma nova fonte de renda, a piscicultura.

“O mercado aqui é propício porque a gente vai produzir uma coisa que as pessoas procuram. Tem o tambaqui, a pirapitinga, o tambacu, tem o curimatã, tem o matrinxã e o pirarucu”, afirma o produtor. Com a expectativa de aumentar e qualificar ainda mais sua produção, ele esteve sempre atento às possibilidades.

Brincadeira de criança

Além da busca pela produtividade, Claudevir também é pai, e um com habilidades de ferreiro. Com o pedido do filho por um avião, a mente criativa logo saiu com uma pequena hélice hasteada em uma vara, rodando com o vento sempre constante.

É nesse momento que a inventividade encontra seu lugar na família. “Essa hélice não parava de rodar, ela não parava. Era uma velocidade imensa. Então pensei: ‘Vou construir um cata-vento para oxigenar a água desses tanques”.

Sempre sorridente, o inventor explica que o peso da hélice é o que ele precisa para levar oxigênio, por meio de mangueiras de baixo da terra e um compressor de ar, para os tanques. “Sem gastar energia, porque energia é dinheiro”, afirma, mantendo o riso no rosto.

Com essa tecnologia agregada ao seu esforço no cuidado dos peixes, a produção de Claudevir tende a melhorar. Sem uma aeração, prática de oxigenar a água, adequada pode haver atraso no crescimento do peixe, reduzir sua eficiência alimentar e aumentar a possibilidade de doenças e até morte.

Por exemplo, em um estudo da Universidade Federal de Rondônia, os alunos do curso de Engenharia de Pesca constataram que tambaquis criados em tanque sem aeração tinham tamanho e peso menores do que animais criados em tanques com tal sistema. Além, de alguns possuírem uma deficiência chamada prolapso labial, por buscarem oxigênio na superfície. No geral, a produção pode aumentar 30% com o uso da técnica.

Com as palhetas rodando forte, a esperança de Claudevir e sua família por tempos mais tranquilos aumenta. “Eu já lutei demais, agora é só eu amadurecer a criação de peixe”, diz terminado. Para seu futuro, a confiança na sua criação de peixes se alia com incentivo do governo do Estado para a cadeia produtiva. “O governo está construindo um frigorífico aqui na “Variante” [estrada que dá acesso à ponte sobre o Rio Juruá]. Eu vou produzir peixe e o frigorífico vai comprar, tenho um mercado aberto”, explica.

Claudevir acredita na piscicultura acreana (Foto: Pedro Devani/Secom)

Somado ao frigorífico, a região tem ainda o Núcleo Industrial de Piscicultura do Juruá, um conjunto de equipamentos construídos pelo governo do Estado, a partir da Secretaria de Desenvolvimento Florestal (Sedens), com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). O empreendimento é gerido pela sociedade pública/privada Juruá Peixes S/A, modelo de gestão em que a Central de Cooperativas de Piscicultores do Vale do Juruá é sócia majoritária. Um investimento inicial de R$ 15 milhões. Além dos mais de 5 mil tanques construídos em todo o estado.

No Acre, em especial nessa região do Juruá, a agricultura familiar encontra seu habitat ideal. A tradição de famílias do seringal, das culturas indígenas e de migrantes recentes, depara-se com terras produtivas, apoio do Estado e se transforma na vontade de mudar o futuro.

Claudevir, com sua experiência de pescador e de ferreiro que aprendeu com o pai no seringal, pode agora trabalhar, com muito esforço, em uma nova possibilidade de renda para toda a família: “Eu no máximo imaginava que eu ia construir um ‘açudezinho’ para criar um peixe e me manter. Mas as coisas foram fluindo, as ideias foram aparecendo, tive uma força de vontade muito grande e agora está aí, cada dia evoluindo mais. Se Deus me der uma boa saúde ainda, nossa família vai chegar longe”.

Texto: Arison Jardim || Fotos: Arison Jardim e Pedro Devani