Doação de órgãos: a dor de quem perde um ente querido e a decisão que pode salvar vidas

Doação de órgãos: a dor de quem perde um ente querido e a decisão que pode salvar vidas

A vida é sem sombra de dúvidas, o bem mais precioso que o ser humano tem. Independente de queixas e das dificuldades do dia a dia, a grande verdade é que todos são apaixonados por ela, e ninguém tem pressa de “partir dessa para a melhor”.

Entretanto, a vida não é eterna. E para algumas pessoas, em dado momento dessa jornada, recebem uma sinalização de que o tempo na Terra pode ser encurtado, em consequência do agravamento de uma doença. Essa é a realidade dos pacientes que necessitam de um transplante de órgãos, e aguardam na fila por um doador.

Seja pela velhice, um acidente ou uma doença repentina, a verdade é que o falecimento pode ser o início de uma nova vida para quem aguarda na fila de transplante. Mas, infelizmente, a recusa familiar no Acre, ainda é o grande obstáculo quando o assunto é doação de órgãos.

No Brasil, segundo dados divulgados na última quarta-feira, 28, pelo Ministério da Saúde, a recusa familiar em autorizar os transplantes é de 43%. No Acre, essa porcentagem é ainda maior, de até 75%. Apesar da estatística, o país registrou o maior número de doadores de órgãos da história. No primeiro semestre deste ano, 1.662 famílias que perderam parentes próximos autorizaram a doação de órgãos, 16% mais que no mesmo período do ano passado, de acordo com a pesquisa.

Avanços e desafios

Ao todo, o governo já possibilitou a realização de mais de 600 transplantes, seja via TFD – Tratamento Fora de Domicilio –, ou na Central de Transplantes do Hospital das Clínicas.

De 2006 para cá, desde a criação da central, o Acre fez a captação de 45 órgãos sólidos (rim e fígado), e cerca de 100 córneas de doadores acreanos.

“Os avanços são grandes em termos de transplantes no Acre, um orgulho sermos o único estado da região Norte com programa de fígado ativo. Porém, temos ainda um grande desafio a ser vencido, que é o número de doação no Acre. Aumentando o número de doadores, consequentemente, aumentamos o número de transplantes, uma vez que só é possível acontecer quando as famílias autorizam a doação”, ressalta a coordenadora da Central de Transplantes no Acre, Regiane Ferrari.

Durante palestra sobre doação de órgãos e tecidos, realizada em setembro no Acre, um dos maiores especialistas em transplantes do país, o médico Tercio Genzini, destacou que por ano são registradas 1,3 milhão de mortes no Brasil, destas, 13 mil são por morte encefálica, ou seja, muitas vidas deixam de ser salvas em decorrência do “não” das famílias.

“Os números estão aí para comprovar, doadores tem para todos, como sempre falo em minhas palestras, o que não tem são doações”, pontua o especialista.

Autorização familiar

Por lei, a doação de órgãos no Brasil somente é concedida com autorização expressa dos familiares após confirmação da morte encefálica. A doação é regida pela Lei nº 9.434/97. É ela quem define, por exemplo, que a retirada de órgãos e tecidos de pessoas mortas só pode ser realizada se precedida de diagnóstico de morte cerebral constatada por dois médicos e sob autorização de cônjuge ou parente.

Para ser doador de órgãos, não é necessário nenhum documento escrito: tudo que é preciso é a manifestação do desejo aos familiares. São os parentes do possível doador que teve morte encefálica que irão consentir ou não a doação de órgão.
Por isso é tão importante falar com os parentes sobre o assunto e os informar corretamente sobre o tema.

Decisões que salvam vidas

Silvania Rossetto, sabe bem a importância deste gesto de amor. Foi graças a doação de um rim – transplante realizado há seis anos no Hospital das Clínicas -, em Rio Branco, que ela pôde recomeçar e fazer o que antes era impossível devido à doença renal crônica avançada. Sem depender mais de uma máquina para continuar vivendo, ela agradece à família doadora.

“Foram 11 anos de espera, e duas oportunidades de transplante fracassadas, devido à falta de compatibilidade. Entendo o momento de dor da família quando se perde alguém que ama, mas, sabendo que aquele fôlego de vida que se foi pode ser um renascimento para outra pessoa. A morte não pode jamais ser o fim”, diz Rossetto.

Silvania Rossetto teve uma nova chance de viver graças à decisões como a de Telma Chaves (Foto: Júnior Aguiar/Sesacre)

Ela completa que só está viva por causa da decisão de uma família que resolveu doar os órgãos do ente querido. “Posso fazer coisas que antes eram impossíveis, como beber um simples copo de água, graças à grandeza de alguém que disse sim à doação. Esse sim foi a minha salvação, e pode ser de muitas outras pessoas que aguardam na fila por um transplante”, completa.

Do outro lado da história, está Telma Chaves, diretora de programas e projetos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema). Ela era mãe da jovem Talissa Chaves, de 17 anos, que faleceu há seis anos após complicações durante uma cirurgia de tireoide. Ela revela que no momento em que soube da morte encefálica, lembrou de uma conversa que teve com a filha dois meses antes, quando ela revelou o desejo em ser doadora de órgãos.

Telma afirma que a decisão de doar os órgãos da filha foi uma difícil escolha que a alegra hoje (Foto: Júnior Aguiar/Sesacre)

“Esse foi um dos piores momentos da minha vida, na hora de tomar uma decisão, sobre a doação de órgãos. […] Quando o médico chegou, e disse que minha filha teve morte cerebral, e que não tinha mais nada a ser feito, e que eu poderia salvar outras vidas, não soube o que dizer na hora. Mas ficando um pouco sozinha, ainda sofrendo muito, lembrei da conversa que tive com minha filha dois meses antes, quando ela revelou seu desejo em ser doadora”, desabafa.

Telma conta que foi possível doar os dois rins e as córneas de Talissa, salvando e dando novas chances de vida para outras quatro pessoas.

“Através da minha filha, conseguimos salvar outras duas pessoas que já estavam em situação gravíssima, na fila de transplantes, além de fazer duas outras pessoas voltarem a enxergar. Fiz questão de conhecer a história e ir visitar quem recebeu os órgãos. A tristeza existiu, mas também a alegria ao mesmo tempo por ter tido essa coragem de doar, sabendo que eu perdi, mas também ganhei”, finaliza.

Texto: Lane Valle| Fotos: Júnior Aguiar | Diagramação e Vídeo: Secom