Governo realiza saneamento ambiental em Santa Rosa do Purus

Governo realiza saneamento ambiental em Santa Rosa do Purus

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Um novo conceito de cidade amazônica isolada está nascendo para Santa Rosa do Purus, Marechal Thaumaturgo, Jordão e Porto Walter. O governo está com uma grande ação cuidando do povo e das cabeceiras dos rios mais importantes do Acre.

As obras do Programa de Saneamento Ambiental e Inclusão Socioeconômica do Acre (Proser) levam qualidade de vida e saúde pública aos quatro municípios com maiores dificuldades de acesso, sem ligação por terra, com um investimento de R$ 100 milhões.

Santa Rosa do Purus terá suas obras iniciadas este ano. Será feita a ampliação da rede de água, construção de uma nova estação de tratamento e nova estrutura de captação. Isso garantirá produção suficiente para abastecer diariamente toda a cidade.

A outra etapa será a implantação da rede coletora de esgoto em toda a cidade, junto da construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), responsáveis pela destinação correta do resíduo sanitário na zona urbana. Além disso, serão pavimentados cinco quilômetros de ruas, garantindo que a cidade tenha acessos e vias com calçadas.

Para começar tudo isso, as máquinas e insumos precisam chegar ao município, e o único transporte possível é com balsas ou barcos. “Vale a pena conhecer esse nosso projeto e essa aventura fantástica que é levar de tão longe para comunidades tão preciosas o saneamento integrado”, convida o governador Tião Viana.

A cuidadosa navegação que leva o saneamento à Santa Rosa do Purus

Sobre a embarcação vão nove máquinas, cerca de 115 toneladas, prontas para começar as obras de saneamento ambiental integrado que o governo do Estado vai promover no município.

“Vai chover hoje, o sol está branco branco”, alerta Leôncio Ferreira, o comandante Careca. A navegação pelos rios da Amazônia deve ser precisa e o piloto tem que ter o olhar atento a bancos de areia, troncos e barrancos. “Outro dia uma balsa encalhou em cima de um cumaru ferro medonha. Demoraram cinco horas para conseguir sair”, relata.

Esse é o único caminho pelo qual podem ser enviados os equipamentos e todos os insumos necessários para qualquer obra em Santa Rosa. O rio é um meio de transporte peculiar, requer muito conhecimento e torna qualquer operação logística um verdadeiro desafio, o qual o governo do Estado tem enfrentado desde que começaram todas as obras de saneamento nos quatros municípios de difícil acesso: Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Jordão e Santa Rosa.

A viagem durou oito dias, percorrendo mais de 370 km de rio (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Máquinas, cimento, brita, ferro, tijolos e outros materiais necessários para qualquer obra precisam chegar ao local e para isso é preciso aproveitar as oportunidades que o rio dá. Por quase seis meses, os rios da Amazônia ficam bem rasos, podendo ser atravessados a pé, por isso, os outros seis meses é a hora de mandar tudo que é necessário para os canteiros.

São nessas viagens longas, em grandes balsas, que equipes demonstram a importância da atenção e do conhecimento da natureza e dos caminhos que o curso d’água proporciona. Entre Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus, na balsa Acre Juruna, três tripulantes vivem por quase dez dias essa jornada que é levar uma cidade em obras ao encontro de outra.

No fim de uma curva do rio, um dos perigos se aproxima. As águas baixaram e apenas uma opção de passagem fica disponível, mas descobri-la não é tão simples. Por um lado, as praias começam a aparecer. E por outro, troncos de árvores podem prender a embarcação. “Isso pode furar o casco da balsa ou quebrar as palhetas da hélice. Duas balsas já afundaram mais para cima por causa do rio ruim”, afirma o comandante, após descobrir o caminho certo a seguir e contar com a ajuda de uma retroescavadeira para desencalhar.

Determinação para mudar

Santa Rosa vai receber R$ 22 milhões em investimentos só no saneamento (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Toda essa empreitada e grande operação logística são possíveis graças a uma determinação do governo do Estado: levar qualidade de verdade para todos os municípios do Acre.

“A decisão de levar saneamento para as cabeceiras dos rios não é apenas corajosa, é uma decisão ousada, assim o fez o governador Tião Viana”, afirma Edvaldo Magalhães, diretor-presidente do Departamento de Pavimentação e Saneamento (Depasa).

O órgão é responsável, junto com a Secretaria de Planejamento do Estado (Seplan), pelo  Programa de Saneamento Ambiental e Inclusão Socioeconômica do Acre (Proser), financiado pelo Banco Mundial.

Com essa ação, o governo está levando saúde pública e dignidade para os moradores dessas cidades que por anos viveram isoladas. “Em Santa Rosa, nas cabeceiras do Rio Purus, vamos garantir saneamento e água para toda a comunidade, além da coleta e do tratamento do esgoto e acesso a pavimentação. Essa decisão vai mudar a vida da comunidade e seu índice de desenvolvimento será aplaudido pelo Brasil inteiro”, explica Edvaldo.

A navegação é precisa e requer muita atenção. Bancos de areias e árvores sobre a água são um perigo para a balsa (Foto: Sérgio Vale/Secom)

O empresário e proprietário da balsa Waldemar Moura é testemunha do quão importante o rio é para a transformação de um local. Trabalhou muitos anos como marreteiro [comerciante] ao longo dos rios entre a Vila Santa Rosa, onde nasceu, e a cidade de Sena Madureira. Começou o transporte com balsa em 1992, junto com a criação da cidade, quando comprou duas balsas em Manaus e fez seu primeiro transporte levando insumos e maquinários, pelo mesmo Rio Purus, para a construção de uma grande pista de pouso na cidade peruana Puerto Esperanza.

“Para Santa Rosa, isso é um progresso muito grande. Posso dizer que com essa ação a cidade vai renascer para um grande futuro”, afirma Moura.

Essa navegação transportando o maquinário e insumos é apenas a primeira etapa de uma grande obra, mas já demonstra o quão diferenciado é construir na Amazônia. Sempre atento a tudo que ocorre no rio e no rebocador que comanda, Careca também sente a importância do trabalho que tem feito nos últimos 20 anos. “A cidade ficaria isolada se não tivesse esse trabalho. Não ia ter nada na vida e estamos ajudando aquelas pessoas. Me sinto satisfeito, quando eu morrer isso vai ficar na história da minha vida”, afirma.

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"Santa Rosa do Purus acertou na loteria com esse investimento que o governo do Estado está fazendo"

Assis Moura, prefeito da cidade

Assis Moura (E), prefeito de Santa Rosa junto de seu vice-prefeito, Nego Kaxinawá

"Com essas obras vamos nos aprofundando cada vez mais na melhoria da cidade, já para nossos filhos"

Jorge Lobatón, morador de Santa Rosa do Purus

"Vale a pena conhecer esse nosso projeto e essa aventura fantástica que é levar, de tão longe para comunidades tão preciosas, o saneamento integrado"

Tião Viana, governador

A balsa com as máquinas chegou no último domingo em Santa Rosa do Purus, foram oito dias de viagem

Ações de governo promovem novo conceito de cidades isoladas do Acre

Em abril de 1993, Santa Rosa do Purus estava em festa. Era comemorado o primeiro aniversário da cidade recém-criada após plebiscito. Na ocasião, Antônio Roque, o então prefeito eleito com 85 votos válidos, disse: “O nascimento de um município é igual nascer uma criança. Nasceu e depois precisa ter cuidado, precisa ter quem cuide direitinho para seguir o caminho”.

Naquele momento, os poucos moradores que decidiram criar ali uma cidade no meio da floresta Amazônica comemoraram sua união, o reconhecimento de que aqui ali estavam brasileiros capazes de cuidar do futuro da região.

Depois de 25 anos, o governo do Estado está promovendo outra renovação em Santa Rosa, levando obras de saneamento básico integrado, garantindo água potável, tratamento de esgoto e pavimento para todas as casas e ruas. Além da construção de um porto, terminal de transbordo e um aterro sanitário.

Santa Rosa do Purus foi criada em 1992, após pebliscito (Foto: Sérgio Vale/Secom)

As obras fazem parte do Proser, realizado pelo Depasa junto com a Seplan. Só em Santa Rosa do Purus será um investimento de R$ 22 milhões. A mesma ação está sendo realizada em Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Jordão, no extremo oeste do estado, totalizando um investimento de R$ 100 milhões.

“Enquanto tantos observam a Amazônia com um olhar negativo, das queimadas, do desmatamento, nós desenvolvemos a  qualidade de vida, conciliando conservação da natureza e o direito ao desenvolvimento humano, socioambiental e econômico para nossas populações indígenas, ribeirinhas, da floresta e das cidades”, afirma o governador Tião Viana.

A história na beira do rio

Jorge conta sua história e a da cidade (Foto: Sérgio Vale/Secom)

A história dessa cidadela banhada pelo Rio Purus, com 80% de seu território composto por unidades de conservação, na fronteira com o Peru, habitada por cerca de cinco mil pessoas, 70% delas indígenas das etnias Yaminawá, Huni Kui, e Madija merece ser propagada por todo o território nacional.

Na beira do rio, ao lado de uma oficina mecânica, com as mãos em um motor, Jorge Lobatón diz acreditar que as águas ainda vão subir: “Ainda pode vir uma aguazinha, é a rouba-feijão, porque o rio enche de surpresa e alaga o plantio recém-feito”. É com essa expectativa que um dos fundadores do município espera a chegada da balsa com as máquinas que vão iniciar as obras de saneamento.

Enquanto isso, ele aproveita o tempo, senta no banco e conta um pouco da história de formação do local. “Naquela época a gente sofria muito. Para subir um barco aqui, passava de meses e meses para chegar lá onde a gente morava. A gente vendia só o caucho [espécie de árvore com látex] ou um pouco de madeira, para comprar as roupas”, relata.

A população de Santa Rosa é 70% indígena, além de haver grande influência peruana (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Diferente de muitos outros locais do estado, um grande pedaço da região não tinha a seringueira, era explorado o cernambi do caucho, que rendia muito pouco. “A gente tinha que trazer toneladas de caucho para conduzir a vida da gente”, afirma Jorge.

Depois de buscar melhores oportunidades, mais próximo da cidade de Manoel Urbano, Jorge foi convidado a voltar para Santa Rosa durante o plebiscito e criação da cidade. “A gente veio, ajeitamos tudo, fizemos uma pista no terçado e no machado. Na primeira eleição eu fui ser vereador, ganhei com cinco votos”, afirma com um grande sorriso de lembrança das peculiaridades do passado.

“Eu gosto de Santa Rosa hoje porque ela é tranquila. A gente convive muito bem, brancos e indígenas. Nasci e me criei do lado deles”, afirma o senhor, que é descendente de mãe peruana e pai nordestino, dando uma grande lição para um país que ainda luta contra o preconceito diariamente. E para o futuro, ele acredita que vai ficar melhor: “Com essas obras vamos nos aprofundando cada vez mais na melhoria da cidade, já para nossos filhos”.

Do Ceará para o Seringal Sobral

Roque hoje é dono de um hotel e comércio em Santa Rosa (Foto: Arison Jardim/Secom)

Companheiro de Jorge na formação de Santa Rosa, Roque hoje passa seus dias cuidando de um hotel e padaria na entrada da cidade, sempre atendendo os clientes que buscam um pão fresco ou os famosos pães de queijo.

Casado e com sete filhos criados ele sente orgulho de sua trajetória, desde que saiu do Ceará, em 1958, e acabou de seringal em seringal. Nessas andanças, conheceu sua esposa no Seringal Sobral, abaixo da antiga vila Santa Rosa. “Não me arrependo de ter saído do Ceará e vindo para Santa Rosa. Construí minha família e represento alguma coisa para o município”, declara.

Após grande luta para realizar o plebiscito e logo em seguida as eleições para prefeito e vereadores na vila que tinha apenas quatro casas, Roque e seus companheiros, cerca de 150 moradores, começaram a erguer as estruturas de centro urbano na floresta. “Nós viemos para roçar o mato aqui, era cada árvore imensa. Essas mangueiras na beira do rio, nós que plantamos todas. Daí em 1993, já construímos umas casinhas, a escola, e aí começou. Graças a Deus foi sempre aumentando”, relata.

80% do território de Santa Rosa é composto por unidades de conservação (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Já sentado na varanda de sua casa, vendo a neta correr entre as árvores, Roque fala sobre as obras que vão chegar em sua cidade. “A pavimentação em um local desse é o sonho de qualquer morador. Principalmente aquele que tem intenção de morar e permanecer com sua família”, fala o ex-prefeito e avô que escolheu Santa Rosa para seguir sua vida.

Conhecedor da região, dos rios e da riqueza natural após anos de trabalho no seringal e outros tantos no serviço de regatão [comércio em uma embarcação], Roque vê Santa Rosa como um ponto essencial para o país e o estado. “Tendo em vista que o mundo precisa das florestas, eu acho que a Santa Rosa hoje tem um grande sentido. Se essas matas forem devoradas, nosso planeta vai virar uma tragédia, por isso nossa cidade significa muito”, explica.

Mesmo sendo um pequeno município isolado, com acesso apenas por rio ou ar, o povo de Santa Rosa ainda exige o reconhecimento e atenção. “Seja grande, seja pequeno, você sabe que o Brasil é um globo, todos nós estamos inseridos”, afirma Roque.

Saiba mais sobre as obras nos outros municípios

Em favor das matas

Os grupos Huni Kui, Yaminawá e Madiha vivem ao longo do Rio Purus (Foto: Ségrio Vale/Secom)

Os dias a bordo da embarcação, navegando desde a ponte sobre o Rio Purus, em Manoel Urbano, até Santa Rosa do Purus, se tornam viagem pela cultura ribeirinha dessa parte da Amazônia. Inúmeras comunidades convivem dia a dia com as águas marrons do Purus e com as matas ainda preservadas nas margens.

Índios, ex-seringueiros, agricultores e pequenos criadores de gado povoam cerca de 374 quilômetros, mostrando que o Brasil é muito além de ruas e prédios.

“Mais à frente tem uma aldeia bonita para a gente ver”, Careca dá a dica para a reportagem. Assim as comunidades da floresta vão se apresentando, no território de Santa Rosa e Manoel Urbano existem inúmeras comunidades Huni Kuin, Yaminawa e Madiha. No topo dos barrancos as casas cobertas de palha abrigam o cotidiano que segue seu curso. Por todas as aldeias é possível ver plantações de banana, urucum para pintura, txais (irmão em Huni Kui) plantando amendoim ou pescando o bodó (peixe cascudo) e garantindo o almoço e a janta com mandioca.

Francisco e outros dez alunos indígenas cursam pedagogia na Ufac (Foto: Arison Jardim/Secom)

Todos sempre receptíveis para os viajantes e com boas conversas. Na Aldeia Nova Mudança, da Terra Indígena Alto Rio Purus, em Santa Rosa, Francisco Barbares Kaxinawá chama os visitantes para uma conversa enquanto se embala em sua rede. Ele quer aproveitar a oportunidade e convidar todos do estado para o Festival Mariri que seu povo vai realizar na aldeia, dia 15 de junho. “Nós precisamos saber da nossa realidade e dos costumes de nossas vidas”, afirma sobre a importância da festividade.

Francisco é estudante de Pedagogia da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Santa Rosa, junto de outros dez alunos indígenas. Está escrevendo seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre a formação de professores indígenas. “Estou vendo que a pedagogia ensina desde o início até o fim. Essa ideia reflete em nossas tradições de morar unificadamente, com tranquilidade, pensando ideias para nosso futuro”, explica.

Diálogos da natureza

Milton Leite já foi conhecido como o último morador da fronteira oeste do Brasil (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Mais abaixo, na divisa entre Manoel Urbano e Santa Rosa, no encontro dos rios Chandless e Purus, está a família de Milton Leite e Marta Pacaya. Por anos viveram próximos à cabeceira do Chandless, no Parque Estadual de mesmo nome, e há dois anos chegaram para a atual moradia na margem do Purus.

Ele, que já foi conhecido em rede de televisão nacional como o “último morador da fronteira oeste do Brasil”, acabara de comprar o milho para as galinhas da esposa, que se encontra em Rio Branco, capital, para tratamento de saúde. Mas, na proa do barco, o tempo para a conversa parecia não ter fim.

Sua paixão pela natureza é contagiante. “Você precisa ver como é bonito lá para cima do Rio Chandless. Quanto mais o senhor anda, mais vontade dá de seguir e conhecer. Vê a floresta, aquelas praias lindas, é muito maravilhoso, a gente se distrai indo na proa, meditando. A floresta é muito importante”, relata sobre a antiga moradia.

Com um sorriso sempre presente e os anos de experiência de vida nas matas, cortando seringa, cultivando tudo, “bolindo com tudo”, como afirma, Milton faz questão de mostrar o que sua casa, a todo aquele ambiente, significa para si: “A natureza nos dá uma alimentação pura e saúde. A vida sem os rios seria um fracasso, mestre. A natureza traz a vida, o conforto, o oxigênio, a floresta. Nosso oxigênio é puro e sadio”.

Textos e diagramação: Arison Jardim || Fotos: Sérgio Vale