Brava Gente - Uma pessoa bonita
26/04/2012 - 08:37
Onides Bonaccorsi Queiroz
“A gente não pode trabalhar só pelo dinheiro. Eu trabalho com amor”, diz Mara Couto (Foto: Onides Queiroz)
A acreana Mara Couto já era adulta e o Sítio do Picapau Amarelo persistia como o lugar dos seus sonhos. Com bosques, riacho, crianças, duas doces avós, lar acolhedor, férias, passarinhos, peixes que passeiam fora d’água, animais falantes, objetos e brinquedos humanizados, aventuras envolventes, seres míticos, mistério e brincadeiras. Quem nunca desejou, ao menos uma vez na vida, conhecer um mundo assim mágico e feliz?
Alimentada por esse imaginário, foi natural que a moça estudasse Pedagogia. Sentia que as crianças detinham o poder de olhar o mundo com as lentes do encantamento e queria estar perto delas, para relembrar o que tinha deixado pra trás: a sua própria alegria.
Em sua carreira de educadora, já esteve em sala de aula, mas há muito trabalha com formação de professores de educação infantil, na rede pública. Quase em vias de se aposentar, ainda se mostra envolvida com o modo de ser dos pequenos. “Eles me ensinam todos os dias, me revigoram, me instigam. O que mais me admira é a honestidade, a entrega, a leveza, o carinho que flui naturalmente nas crianças. Não fazem ‘o jogo’. Protestam quando não querem algo. Precisamos aprender com elas”, recomenda.
Mara tem em tão alta conta a expressão infantil que até hoje tem espalhados pela casa os objetos confeccionados por seus filhos na escola. Tiago, o mais velho, já se casou, e Carolina estuda veterinária, mas o porta-chaves e o desenho enquadrado na moldura seguem pendurados na parede, assinados por letrinhas vacilantes.
Mais: na sala, uma boneca negra repousa sobre uma das poltronas: “Não é linda, amiga?”, pergunta, sorrindo, com sua voz suave e tranquila. No quarto, outra, de pano, enfeita sua cama. Essa lembra a Emília de Monteiro Lobato. Não por acaso.
Por tanta reverência que presta à infância, a educadora chama a atenção para uma tendência negativa que vem aumentando nos últimos anos: “As crianças estão ficando cheias de problemas e dores emocionais. Muitas estão violentas, ou tristes, e frequentemente se sentem abandonadas. Os adolescentes gritam muito. Então, a educação não pode mais abordar apenas conteúdos programáticos, a escola precisa compreender que pode desenvolver outros potenciais, olhar mais humanamente para o outro e trabalhar a pessoa em sua totalidade. Não perceber isso é muito grave. A sociedade em geral está precisando de momentos de mais serenidade, reflexão, amor, troca”, observa.
E foi em busca dessas preciosidades em sua vida particular que Mara conheceu, em 2005, a ioga (pronuncia-se “iôga”). A filosofia iogue, surgida há mais de cinco mil anos na Índia, busca o alinhamento do corpo, da mente e do espírito por meio de exercícios físicos, respiratórios e mentais. Em tempo: ioga quer dizer “união” em sânscrito.
A afinidade foi imediata: “eu me encontrei como pessoa”, comemora – o mais curioso é que Mara, com seus olhos grandes e expressivos, sobrancelhas grossas e pele acastanhada, tem mesmo feições indianas. Com pouco tempo de prática já demonstrava interesse em se aprimorar, como professora. Logo fez sua primeira formação no Instituto Ananda Marga, em São Paulo. Desde então, vem se especializando e montou um espaço em sua casa para dar aulas: “Com piso de madeira, que ‘abraça’ o corpo”, salienta. E quase todas as noites reúne grupos de alunos.
Recentemente, foi convidada pela SEPMulheres (Secretaria Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres) a levar uma sessão para as haitianas abrigadas no Parque de Exposições, em Rio Branco. A experiência, embora breve, teve boa receptividade. “A ioga também tem o cunho de aliviar o sofrimento humano”, explica Mara, que deseja atuar em projetos de voluntariado.
Uma vez iniciado o processo de harmonização consigo própria e com as outras pessoas, a ligação com a natureza tem sido consequência. Mara sente que, após um longo período de afastamento de suas raízes, tem se reconectado com a majestosidade da floresta e com sua gente. “Cada vez valorizo mais a cultura do seringal, dos índios, do rezador, dos chás, a sabedoria dos povos antigos”, declara.
No ano passado, adquiriu uma área de três hectares, com mata e nascente, na estrada de Porto Acre. É o “Sítio Ananda” (significa "bem-aventurança"), a ser inaugurado ainda este ano. Pretende transformar o local num centro de autoconhecimento, com meditação, ioga, dança, educação e práticas autossustentáveis, a exemplo do Instituto Visão Futuro, em Porangaba (SP), renomado mundialmente. Será um espaço destinado a ajudar as pessoas a se compreenderem e tornarem a Terra um lugar melhor para todos. "É o meu Sítio do Picapau Amarelo", festeja.
Ao descobrir que o mundo mágico vive dentro de si, Mara diz que se sente "voltando pra casa". E está dando conta de um recado de gente grande: fazer seu sonho virar realidade.
Brava Gente: Cícero Franca, um artista leal à cultura popular
13/04/2012 - 16:58
Onides Bonaccorsi Queiroz
No lugar onde moro
A floresta é preservada
Pena que é bem pequena
Pior se não fosse nada
Mas o pouco com Deus aumenta
E o muito sem Deus acaba
Cícero Franca é artista popular acreano (Onides Queiroz)
Na Rua do Coco, o portão se abre e o visitante adentra um universo particular e encantador. Um grande quintal cheio de árvores e de pássaros cantando. É permeado por um cheiro reconfortante de terra úmida, e o cacarejar das galinhas, espalhadas pelo terreiro, empresta ao espaço um tom de intimidade típico da vida doméstica do interior. Os donos da casa são gente simples e acolhedora. Por isso, quem chega tem vontade de ficar.
É a morada de Cícero Franca de Farias, artista popular acreano e autor dos versos ilustrados no início do texto. Ali vive com a mulher e parceira de trabalho, Rosa Nascimento, e os quatro filhos. O terreno abriga um galpão, um depósito e um estúdio, que é a sede da Associação Império Beija-Flor, onde ocorrem os ensaios das atividades artísticas da família e demais associados, entre parentes, amigos e vizinhos. O carro-chefe do grupo é o folguedo popular Jabuti-Bumbá, uma criação coletiva de Cícero e de seus irmãos, surgida em 2005.
O Jabuti é uma boa amostra da proposta de trabalho de Cícero. É resultado da mescla de diversas manifestações culturais, como baião, ciranda, frevo, maracatu, cordel, pastorinhas e outras. É brincadeira, dança, música, e, plasticamente, trata-se de um belo e colorido espetáculo. Os brincantes, como são chamados seus integrantes, executam passos percorrendo uma linha circular ou em cortejo. Maracás, zabumba, sanfona, pandeiro e percussão são os instrumentos utilizados no folguedo. Um dos temas predominantes do Jabuti-Bumbá é a defesa da floresta. Apesar de ser um grupo novo, já participou da minissérie Amazônia, da Rede Globo, e, a convite da Funarte, também da cerimônia de posse da presidente Dilma, no ano passado.
Mas há mais. Porque Cícero é multifacetado: artista plástico, desenhista, compositor, repentista, cordelista, ator, poeta, cantor, contador de histórias e algo mais – não por acaso, é filho de Deusa Farias, poeta, atriz e primeira mulher ourives do Acre. Identifica-se com o que diz respeito à arte popular e nutre por ela veneração. O poema abaixo, registrado em forma de literatura de cordel na publicação “Resgatando a tradição”, de sua autoria, expressa, de modo lúdico e breve, o conteúdo que muitos acadêmicos tentam buscar em suas longas teses.
A cultura é popular
A cultura é transparente
É tudo o que o povo faz
É tudo o que o povo sente
É a história de um povo
Que ao fazer fica contente
Cícero demonstra, pela arte, um apreço que beira a inocência, o que é uma sofisticação. Transparece nele um interesse sincero em resgatar, o tempo todo, o belo e o criativo. Esse toque de imaginação está presente em tudo o que faz: nas paredes de sua casa, todas transformadas em painéis de pintura da família, e também nos objetos de decoração, como a gravata trabalhada em purpurina, exposta na sala de estar, do figurino de um de seus personagens mais famosos, o Zé do Coco.
Há outro aspecto nobre na expressão de Cícero, que é a defesa da expressão da coletividade, traço muito raro num mundo que cultiva, cada vez mais, a vaidade e o egocentrismo. “Nunca me interessei em olhar meu lado individual. Sempre preferi apoiar os grupos como um todo”, conta.
A conversa com ele é entremeada de música, brincadeira, repentes, histórias e anedotas. Num momento lembra a infância e de repente, pergunta:
– Tu sabe por que tem tanta gente tonta por aí?
– Não – responde o interlocutor.
– Porque o mundo gira!
E assim ri e faz rir, mostrando que nada é tão sério assim.
Sim, no mundo de Cícero Franca tem muito humor. E religiosidade, e folclore, e fantasia, e ecologia... É bom estar atento dentro desse fantástico espaço. A sensação é de que, a qualquer momento, pode-se dar de cara com uma fada... Ou com o Mapinguari!
De qualquer forma, Cícero segue seu caminho, e só cuida de estar bem. É como ele defende:
Posso parecer um louco
Isso não ligo não
Mas os versos que eu faço
São feitos com emoção
E o lugar que tiro versos
É de dentro do coração
Jabuti-Bumbá é um folguedo popular acreano (Gleilson Miranda/Secom)
Brava Gente – Uma história singular, uma mulher plural
04/04/2012 - 16:44
Onides Bonaccorsi Queiroz
A pernambucana Maria José Bezerra nasceu no dia 25 de dezembro, no bairro Cordeiro, em Recife, como que anunciando: vim viver profundamente e trazer coisas boas ao mundo.
E como ninguém vive de verdade sem provar do sofrimento, cedo um conflito familiar marcou a criança. Torturava-a muito o comportamento do pai, hostil, machista e, em contraponto, o papel da mãe, submissa e sem perspectivas. Talvez por perceber, ainda que inconscientemente, que o anseio pela dignidade é próprio da alma humana e que é direito de todos, Maria José decidiu: “Não quero essa vida para mim”. Tinha seis anos de idade.
“O fraco não é para ser destruído, é para ser apoiado pelo mais forte”, diz Maria José (Angela Peres/Secom)
Resolveu, então, ser professora. Já amava os livros e o conhecimento. Entregou-se a eles. A mãe, embora não fosse letrada, desdobrou-se em sacrifícios pelo sonho da filha única e ganhou sua gratidão eterna: “O que eu sou, devo à Mamãe. Até ônibus ela lavou para me ajudar”, conta. E conseguiu graduar-se em História pela Universidade Federal de Pernambuco.
Foi lecionar na rede estadual de ensino e continuou seus estudos: veio o mestrado em História Social. Mas por que História? “Porque a História me encanta. Registra as histórias de todos, reflete sobre as experiências. A História é a valorização do ser humano”, discorre.
Em 1984, uma amiga lhe contou que a Ufac (Universidade Federal do Acre) abrira um concurso para professores de História Contemporânea. Ela se inscreveu, participou e passou em primeiro lugar. Sob os protestos da mãe, veio para Rio Branco. E encarou um grande desafio: mulher, negra, arrimo de família, sem marido, teve que desbravar seu espaço numa sociedade de moral provinciana, numa época em que as discriminações de todo tipo eram ainda maiores do que hoje. Pois a moça não se intimidou: lançou mão de sua competência e conquistou o que precisava no mundo acadêmico.
Ainda fez outro mestrado e, mais tarde, um doutorado na USP. Em 2004, foi personagem da campanha “O melhor do Brasil é o brasileiro”, do governo federal, da qual ficou conhecido o bordão: “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”. No princípio, resistiu em participar, pois estava doente e com o corpo muito inchado, com suspeita de lúpus – que mais tarde não se confirmou. Depois, mudou de ideia: “Aceitei o convite quando percebi que meu testemunho poderia estimular o desenvolvimento de garotas negras vindas do mesmo lugar social que eu”.
Aqui teve sua filha Luanda, nome que, em uma de suas acepções, quer dizer “filha da África”. A moça tem 21 anos e estuda Direito. “É linda por dentro e por fora”, derrete-se a mãe.
Entremeado a tudo isso, Maria José atravessou problemas de saúde, que sempre lhe exigiu cuidados especiais: já enfrentou 25 cirurgias, sendo 18 de mama, para retirada de nódulos. Já perdeu a visão – e recuperou.
Seus 58 anos de vida são mesmo pontuados de intensidade: as situações extremas, a capacidade, as dores morais e físicas, os estudos, a organização, a força. As emoções também.
Ela conta que o ressentimento que nutria pelo pai a perseguiu por muito tempo. Anos depois de sua morte, ainda lhe feriam as atitudes dele, sobretudo aquelas apresentadas em sua infância e adolescência: as ausências prolongadas, a desvalorização do feminino, os recursos financeiros que ele lhe negligenciou. O tormento foi tanto que acabou compreendendo que, para ser livre, precisaria perdoá-lo. Com a coragem de sempre, mergulhou na própria escuridão e foi buscar – criar – o perdão dentro de si. “Custou muito, sofri muito, chorei muito, mas consegui”, conta. Como? “Em um dado momento, percebi que ele tinha qualidades também”, dá a dica.
Além de lhe pacificar o coração, o reconhecimento às virtudes do pai ofereceu alívio aos problemas de saúde.
A partir da riquíssima experiência pessoal, Maria José desenvolveu uma habilidade ainda maior de entender o drama humano. Em especial, no que diz respeito à necessidade de se desenvolver a tolerância e a solidariedade para sobreviver.
“A História humana é um pequeno capítulo da História da natureza. O fim do mundo é o que estamos fazendo uns com os outros e alguns com a natureza. O século XXI nos coloca a questão: ou aprendemos a nos respeitar e a cooperar, ou vamos sucumbir”, analisa a professora.
Com seu olhar que já viu tanto e continua transbordando afeto, ela demonstra que não perdeu a esperança: “a evolução das espécies nos torna seres capazes de altruísmo”, ensina.
Brava Gente - Uma Cinderela no Acre
23/03/2012 - 16:16
Onides Bonaccorsi Queiroz
Ivani Morais da Silva, recepcionista da Secom: "Quem sofre finda por aprender" (Gleilson Miranda/Secom)
A menina chorava muito. Doíam-lhe a falta de carinho, a ausência de família. Sentia-se sozinha no mundo. Acabara de perder a mãe, num acidente automobilístico. Moravam até então no município acreano de Plácido de Castro, numa colônia, onde viviam da agricultura. Três anos antes, o pai havia sido assassinado “por questão de terra”, em Rondônia. E, depois de tudo, foi apartada do único irmão, pois foram adotados por famílias diferentes, que moravam em cidades distintas. Para piorar, era maltratada no novo lar.
Ou seja: aos dez anos de idade, Ivani Nunes Morais da Silva enfrentou um pesadelo capaz de fazer tremer pernas de gente grande.
Como tentativa de fuga do mal-estar, casou-se aos 16 anos e logo teve um filho. Três anos depois, o segundo. O casamento não durou muito.
Empregou-se como doméstica em casas de família, até que foi contratada por uma empresa prestadora de serviços e começou a trabalhar na Secom (Secretaria de Comunicação do Estado do Acre). À mesma época, casava-se pela segunda vez. Ali, atuou oito anos como servente. Retomou os estudos e, há seis meses, foi convidada para compor a equipe de recepcionistas da secretaria.
Lucenildo Lima, responsável pelo setor administrativo da Secom, justifica os motivos de tê-la promovido: “Certa vez, precisei conversar com o pessoal da limpeza sobre alguns aspectos que estavam gerando insatisfação. Todo mundo ficou quieto, Ivani foi a única que contra-argumentou, com muita pertinência. Esse fato chamou minha atenção. Vi nela senso crítico, capacidade de liderança, potencial. É antenada, sabe falar, sabe se portar e olha nos olhos quando conversa. Muita gente que chega aqui faz elogios à sua presteza e simpatia. Só lhe faltava uma oportunidade, nós lhe demos e ela só tem correspondido às nossas expectativas”.
Na recepção, Ivani tem sempre um sorriso, uma palavra amável para receber os visitantes, a boa vontade de atender e ajudar quem quer que chegue. A criança que sentiu na pele a dor dos maus-tratos aprendeu uma preciosa lição: “Todas as pessoas merecem ser bem-tratadas. E, além disso, a gente nunca sabe o dia de amanhã.”
A moça conta que tem muita fé e é por esse meio que obtém o que precisa. “Eu não tinha onde morar, não tinha nada. Consegui, junto com o meu marido, comprar um terreno, construir. Eu chamo minha casa de ‘mansão’, porque sei o quanto lutei para consegui-la. Estamos criando nossos filhos juntos, dois meus, dois dele, com harmonia entre todos. Eu precisava de uma condução, porque moro longe. Passava na loja de motos e ficava só olhando. Dizia, com lágrimas nos olhos, ‘é esta que eu quero, Senhor’, e consegui comprar exatamente aquela. Quando encosto a cabeça no travesseiro e faço uma retrospectiva, vejo que o que Deus fez em minha vida foi tremendo”.
E Ivani continua batalhando, junto com a família. Para reforçar o orçamento doméstico, todo sábado, às três da manhã, todos já estão de prontidão no salão de festas da AABB (Associação Atlética Banco do Brasil) para tratar da faxina, após os eventos realizados no local.
Mas os sonhos estão cada vez mais elevados. Agora ela planeja entrar numa faculdade e até já escolheu o curso: Direito. É fácil entender sua opção: “Meus direitos já foram muito desrespeitados, sofri muito com isso. Quero ajudar aquelas pessoas humildes, que não sabem se defender”.
A curitibana Ivani encarnou uma verdadeira história de Cinderela, mas o socorro não veio de fora, senão de seu próprio espírito corajoso, em que confiou, lançou-se, enfrentou os desafios e, com isso, atraiu boas oportunidades para transformar o próprio destino.
Provou de todos os ingredientes necessários para tornar alguém amargo ou depressivo pelo resto da vida. Seu mundo emocional sofreu traumas tão abaladores na infância que poderiam até mesmo tê-la condenado a viver num ambiente psiquiátrico.
Mas, felizmente, não foi o que aconteceu. O sofrimento forjou uma guerreira, uma heroína que escolheu viver. E viver bem. Suas fadas-madrinhas: doçura, fé e trabalho. Ciente de sua capacidade, a bela mulher declara: “Eu já venci. Daqui pra frente é só correr para o abraço”.
Quem tem ouvidos, que ouça Ruth
13/03/2012 - 09:27
Onides Bonaccorsi Queiroz
Há 20 anos, Ruth de Souza e Silva já trabalhou na UTI, no Centro Cirúrgico e hoje, na Humanização, canta para alegrar o coração dos usuários da instituição (Foto: Angela Peres/Secom)
Lá do fim do corredor, vem chegando uma voz melodiosa, com certa carga dramática, mas suave, entoando canções. Uma voz de mulher. Quem não conhece, estranha, inquieta-se, pergunta: "Como assim, uma cantora no hospital?". Uma cantora no hospital.
É a Ruthinha. No Huerb (Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco) há 20 anos, Ruth de Souza e Silva já trabalhou na UTI, no Centro Cirúrgico e hoje, na Humanização, canta para alegrar o coração dos usuários da instituição e também dos colegas.
Alguém pediu para ela cantar? Não. Ela canta porque a música transborda dentro de si. Junto, derrama entusiasmo, carinho e palavras de conforto para quem está fragilizado pela doença, para quem aguarda uma consulta ou acompanha um familiar internado.
Ruth não esquece que atrás de cada rosto há uma história. E se aquela história levou o indivíduo até o hospital, é certo que ele carrega aflições. “A gente tem que entender o ser humano, acolhê-lo”, diz. Com naturalidade, ela vive, observa e declara, do alto dos seus 59 anos: “A natureza e o tempo me ensinam”.
O talento artístico despertou cedo, antes dos dez anos. Na escola, apresentava-se cantando e representando. De modo que seu sonho era ser cantora profissional, mas, na época de sua mocidade, o preconceito contra os artistas pesou mais e o pai a impediu de realizá-lo.
Ruth não esquece que atrás de cada rosto há uma história. E se aquela história levou o indivíduo até o hospital, é certo que ele carrega aflições (Foto: Angela Peres/Secom)
Não deteve o seu cantar, entretanto. Ruth já se apresentou no show Boca de Mulher, reeditado há mais de 20 anos em Rio Branco, com frequência é convidada a dar mostras de seu talento, especialmente em igrejas e, em outubro passado, fez uma exibição no Sarau do Servidor, no Teatro Plácido de Castro.
No ambiente de trabalho, além de canções e hinos, declama poemas e faz orações. O Same (Serviço de Arquivo Médico Estatístico) é um dos setores do Huerb que Ruth visita com regularidade. Sônia Almeida, gerente, declara: “Ruth transmite paz, vem pelos corredores cantando, sempre alegre. Sua música faz bem para todos.”
Ao falar sobre a experiência de cantar, fica visível a satisfação que toma conta dela: “Quando canto sinto uma paz que renova todas as minhas expectativas, não dá para lembrar-se de problemas, falta de dinheiro, doença... Cantar me fortalece, dá ânimo, uma vida feliz.”
E, assim, Ruth segue contente, fazendo o que acha bom e correto.
No seu ofício, pode despertar o entendimento de que se a formiga da fábula de Esopo fosse mais sábia, em vez de pensar apenas em executar seu trabalho, de modo previsível e enfadonho, agradeceria à gentileza da cigarra cantante. Afinal, com sua arte, ela é capaz de transfigurar o cotidiano de quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Brava gente que chega pra ajudar
24/02/2012 - 17:11
Onides Bonaccorsi Queiroz
Aprendi que um homem só tem o direito de olhar outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
Gabriel García Marquez
Cerca de 400 voluntários se apresentam diariamente no Parque de Exposições (Angela Peres/Secom)
Uns distribuem marmitas. Outros cortam cabelos. E outros, ainda, constroem banheiros. Na verdade, há dezenas de serviços sendo executados por voluntários no Parque de Exposições de Rio Branco e em outros cinco abrigos para as vítimas da enchente na capital. Cerca de 400 cidadãos se candidatam diariamente para auxiliar na recepção de mais de 5.800 pessoas hospedadas nos abrigos da prefeitura. Cerca de 80 por cento são servidores públicos do estado e município. Os demais provêm da sociedade civil.
Seja como for, dia e noite há gente doando seus esforços para confortar, física e moralmente, quem sofreu grandes perdas. E, de voluntário em voluntário, somam-se centenas de histórias com o melhor ingrediente que o ser humano tem a oferecer: a solidariedade.
Conheça algumas delas:
A digitadora
Kelem de Souza deixou suas férias e arregaçou as mangas (Angela Peres/Secom)
A auxiliar de escritório Kelem de Souza estava de férias e “passava o dia dormindo”, como ela mesma conta, rindo. Entre uma soneca e outra, ouviu na TV as chamadas de voluntários para trabalhar no apoio às vítimas da enchente no estado e se compadeceu. No início da semana, a estudante de Psicologia se apresentou à administração do Parque de Exposições e desde então dá expediente como digitadora, tarefa que desenvolve com habilidade. “Estou me sentindo bem útil”, diz, satisfeita. E afirma que teria aceitado qualquer outro serviço que lhe dessem.
Os artistas
Dallas Din e Roberto Lages levam brincadeiras e música para a meninada (Angela Peres/Secom)
Disponibilidade é o próprio espírito do voluntariado. Roberto Lages, arte-educador,comoveu-se pela fatalidade que atingiu tanta gente e se dirigiu ao parque para ajudar. Começou carregando móveis, mas observou que grande quantidade de crianças ficavam soltas, sem atividade, e se preocupou com isso. Logo propôs um projeto de musicalização com brincadeiras para a administração, recebeu aprovação e, junto com o músico Dallas Din, realiza dinâmicas com o público infantil todas as manhãs, e, às vezes, à tarde. “É uma alegria participar deste momento de trazer esperança para as crianças”, observa. Lages relata que está convidando outros colegas artistas para engrossar o cordão da equipe lúdica, pois a demanda é grande. “Quando a gente fala que vai embora, a meninada fica triste”, narra.
Educadora social
"Trabalhamos por uma causa maior", diz Silvana Rossi (Angela Peres/Secom)
Atuando no parque desde o domingo, 12, a antropóloga Silvana Rossi colabora no setor de distribuição de fraldas, absorventes, leite e mingau.“A experiência está sendo boa. A gente precisa atender bem, com tranquilidade, educação e bom humor. Algumas pessoas chegam nervosas, querendo brigar, então atuamos na mediação de conflitos também”, diz essa educadora social da Semcas (Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social de Rio Branco). E conclui: “Voluntariado é trabalhar por uma causa maior, de coração.”
A enfermeira
A enfermeira Tatiana Barros também quis ajudar (Angela Peres/Secom)
Tatiana Barros, recém-formada em enfermagem, ainda não tem emprego. Mas, há alguns dias, correu para o Parque de Exposições para oferecer sua mão-de-obra. No setor de saúde, trabalha onde é necessário: na farmácia, na sala de medicação ou onde a chamarem. Afinal, está ali para somar. “O sofrimento das pessoas me mobilizou. Estou ajudando e me sinto útil”, declara. E abre sua carreira com chave de ouro.
Brava Gente: “Coloque-se no lugar do outro e dê o melhor de si”, diz servidora da OCA
16/02/2012 - 17:30
Onides Bonaccorsi Queiroz
Maria Goreth se destaca no atendimento ao público da OCA (Gleilson Miranda/Secom)
Sete mil pessoas. É o contingente médio atendido todos os dias na OCA, Central de Serviço Público de Rio Branco.
Agora, considere-se que cada um dos indivíduos que passa por lá com alguma demanda é portador de uma história pessoal, de um modo especial de ser, de pensar, de agir, e tem crenças, necessidades, anseios, um mundo emocional todo particular, tem sonhos, família, preocupações, expectativas e problemas. Enfim, um universo subjetivo e próprio, nunca idêntico a qualquer outro.
É com essa diversidade humana que os atendentes da OCA se relacionam diariamente. Portanto, em cada solicitação recebida nos balcões da instituição, é preciso que apresentem as qualidades de disposição, preparo, tolerância, gentileza e traquejo para realizar o serviço a contento.
Pelo que indicam os resultados das pesquisas internas realizadas, a equipe tem se saído muito bem diante do desafio proposto. E, mesmo nesse painel de excelência, alguns servidores se destacam. É o caso de Maria Goreth dos Santos Fernandes, técnica em gestão pública, que está na OCA desde o projeto-piloto. Essa estudante de administração de empresas é reconhecida, entre colegas e chefia, pela sua capacidade de receber bem e resolver com calma e eficiência as demandas que lhe chegam.
Goreth descreve um pouco seu cotidiano na unidade de Identificação: “Há pessoas que chegam aqui sem nenhum documento, porque perderam. Outros pensam que a identidade e o RG são documentos diferentes. Há ainda quem tenha mania de documento e venha uma vez por semana ou a cada 15 dias para tirar as mesmas certidões. E, algumas vezes, a pessoa é analfabeta. Em todos os casos, precisamos ter atenção e sensibilidade para lidar com a situação. A gente tem que esclarecer com delicadeza, para que a pessoa não fique constrangida pela própria ignorância.” Ela explica que até mesmo nos casos em que é necessário conceder isenção, para uma taxa de emissão de segunda via de documento, por exemplo, é preciso oferecer com habilidade, para que a pessoa não se sinta humilhada pela sua falta de recursos.
Ou seja: para muito além dos encaminhamentos burocráticos, trata-se de um trabalho que demanda sutileza. “O que eu aprendo aqui é ser mais humana, ter mais sensibilidade”, relata Goreth.
E, entre tantos atendimentos, às vezes acontece algum que se torna marcante. “Uma senhora chegou aqui com uma criança com deficiência e precisávamos fotografá-la, o que era muito difícil, porque o menor não parava de chacoalhar a cabeça. Então, com paciência, desviamos a sua atenção e, quando ele se distraiu e relaxou, fotografamos. A mãe ficou muito grata, como se tivesse ocorrido um milagre, pois tinha tentado fazer isso várias vezes, sem conseguir. Nossa atuação foi uma coisa bem simples, mas, para a mãe, bastante valiosa. Isso me tocou muito”, conta.
Os diversos episódios da atuação competente e amável de Goreth são acompanhados – e recompensados – pelos seus superiores na hierarquia da casa: “Maria Goreth é uma pessoa batalhadora, que luta muito para criar suas duas filhas, trabalhar e estudar. É interessada, pró-ativa e gosta do que faz. Fez a capacitação inicial e logo entendeu o propósito que nos foi destinado: atender com excelência o cidadão. Por seu trajeto de servidora, por seu compromisso e trato com a coisa pública e principalmente seu atendimento ao cidadão, foi promovida, e, no mês de março, iniciará nova função: supervisora de praça, aqui na OCA”, anuncia Margareth Cavalcanti, coordenadora do Departamento de Gestão de Talentos da OCA.
E, para quem quer se destacar no exercício de servir ao público, Goreth dá o caminho das pedras: “O segredo de atender bem é gostar de pessoas e amar o que faz. É se colocar no lugar do outro e dar o melhor de si”, diz com sua simplicidade plena de sabedoria.
Uma vida dedicada ao caminho religioso
10/02/2012 - 17:06
Viviane Teixeira
Irmã Juliana: Bodas de Jequitibá, 100 anos de história (Val Fernandes)
Com raízes profundas, galhos fortes e uma sombra refrescante, o jequitibá é uma das árvores mais fortes e bonitas que existem. E por essas características foi escolhida para representar as Bodas de 100 anos. As peculiaridades que marcam a vida da Irmã Maria Juliana fazem com que a comparação com o jequitibá se torne inevitável e marque o seu centenário com palavras que ela tem como ordem: o amor, a fraternidade e a doação.
Com um belo sorriso no rosto e a tranquilidade no jeito de falar, Irmã Juliana recebeu nossa equipe de reportagem como quem recebe velhos amigos para um chá da tarde. A lucidez e a boa memória chamam a atenção durante o diálogo. Ela conta que veio do Ceará com apenas cinco anos de idade. Foi morar em Sena Madureira junto com os pais e os cinco irmãos. Em 1921, com a chegada das irmãs Servas de Maria Reparadoras, a Sena Madureira, Juliana começou a fazer catecismo e a frequentar o Instituto Santa Juliana. Estudava no período da manhã, e à tarde gostava de ficar na companhia das religiosas, com quem aprendeu artesanato e bordados e logo começou a dar aulas de prendas. “Me lembro bem que adiantava o relógio e dizia para minha mãe que já estava na hora de ir pro Instituto. Gostava muito de estar com as irmãs e trabalhar”, relata.
Aos 19 anos entrou para a vida religiosa, mas uma doença nas pernas fez com que voltasse para família por nove anos. Ainda assim, durante esse período Juliana frequentava o Colégio para dar aulas de prendas. O Colégio Santa Juliana, no princípio de suas atividades, servia de internato para meninas órfãs da cidade e dos seringais. Além do ensino religioso, as crianças aprendiam lições de bordado, costura, plantio de hortaliças e outras atividades profissionalizantes.
Colégio Santa Juliana, irmã e jovens limpam o terreno para a construção da instituição (Arquivo)
Com o fim do primeiro ciclo da borracha, as Irmãs de Maria viram-se impossibilitadas de manter o colégio, sendo obrigadas a retornar à Itália. Em 1936 o colégio fechou para o ensino, mas os trabalhos de caridade continuaram sendo feitos pela irmã Juliana. “Não podíamos deixar a escola fechada, por isso fazíamos almoços para reunir as pessoas, e eu ministrava aulas de prenda”, disse. Em 1947 a religiosa seguiu para o Rio de Janeiro, e depois de concluir o noviciato ela voltou para o Acre e permaneceu em Xapuri até 1950.
Uma vida doada em prol da construção de novos ideais e da educação
Irmã Juliana foi uma das fundadoras do Instituto São José, quando ainda era uma casa de madeira (Arquivo)
Ao ser transferida para Rio Branco, a trajetória de vida da irmã Juliana se misturou com a consolidação de duas escolas tradicionais da capital: o Instituto São José e o Instituto Imaculada Conceição. Junto com a primeira diretora do Instituto São José, Madre Evangelista Simonato, irmã Juliana ajudou a fundar o colégio em 1958. “Durante a noite nós quebrávamos tijolos para adiantar o trabalho dos homens no dia seguinte. Mas logo recebemos o apoio de outras pessoas para a construção”, destaca a irmã.
Quando a religiosa foi transferida para o Instituto Imaculada Conceição, o local era tomado pelo mato e pela falta de estrutura. Mas, segundo ela, as dificuldades foram superadas com muita oração e paciência. “Apenas obedecia em silêncio. É um trabalho feito um muito amor e alegria. Tenho muito a agradecer a Deus por tudo que recebi e superei.” Irmã Juliana destaca ainda que o Instituto Imaculada Conceição era destinado a internas, geralmente filhas de seringalistas que queriam estudar. “Tive a ajuda do senhor Valdemar de Souza, que se preocupava até com a falta de comida.”
Reconhecimento das pessoas que veem de perto o comprometimento com a vida religiosa
O trabalho de dedicação da irmã Juliana foi reconhecido pelo governo do Estado. Ela recebeu das mãos do governador Tião Viana a condecoração da Ordem da Estrela do Acre (Sérgio Vale/Secom)
Irmã Maria Juliana é um exemplo de dedicação à causa religiosa. Ela é da ordem Servas de Maria Reparadoras e é muito querida entre as demais irmãs, políticos, ex-alunos e comunidade em geral. “A Irmã Juliana é nossa história viva, é muito considerada pela congregação, amigos e parentes. Seu trabalho de dedicação e apoio aos mais necessitados é um exemplo e merece respeito”, enfatiza a irmã Regina, que também é Serva de Maria Reparadora.
Já a irmã Augusta revela que, mesmo depois de dedicar tantos ao trabalho com menores órfãos, abandonados, de ministrar aulas de prendas e atividades manuais, irmã Juliana ainda ajuda na cantina do Imaculada Conceição. “Ela tem como norte a necessidade de servir a Deus e aos semelhantes.”
Ex-aluno do Colégio Imaculada Conceição, o repórter cinematográfico Kennedy Santos conviveu com a religiosa por quatro anos. Ele lembra que a inspetora de ensino era muito rígida e exigente. “Estava sempre atenta aos alunos que não seguiam as regras da escola. Mas foi durante o período em que tive contato com a religiosa que tive a minha personalidade formada. Ela também me ensinou valores como respeito aos idosos, disciplina e honestidade. Outro aspecto marcante da irmã Juliana é que ela sempre chamava todos os alunos pelo nome”, relatou Santos.
O trabalho de dedicação da irmã Juliana foi reconhecido pelo governo do Estado. Ela recebeu das mãos do governador Tião Viana a condecoração da Ordem da Estrela do Acre. A Ordem da Estrela do Acre é a mais alta distinção concedida pelo governo do Estado conferida a personalidades ou instituições que sejam consideradas dignas do reconhecimento do povo acreano.
Na ocasião o governador disse que “a gratidão é o sentimento mais bonito que existe”. Ele afirmou que, com as condecorações, o governo do Estado está demonstrando gratidão às pessoas que vivem em santidade no Estado por muitas décadas. “Ter a irmã Juliana ao nosso lado muito nos honra e engrandece o nosso Acre”, afirmou. Ela ainda recebeu da Assembleia Legislativa o título de Cidadã Acreana e foi condecorada em 2004 pelo então governador Jorge Viana.
Centenário será comemorado com missa
Irmã Juliana e Irmã Anacleta (Val Fernandes)
As Irmãs Servas de Maria Reparadoras convidam com alegria toda a comunidade para a celebração da Missa de Ação de Graças pelos 100 anos da Irmã Maria Juliana, que será celebrada pelo Arcebispo de Porto Velho, Dom Moacyr Grechi, no dia 13 de fevereiro, às 19 horas, na capela do Instituto Imaculada Conceição. “Participe conosco deste momento especial de agradecimento ao Senhor pelo dom da vida de Irmã Juliana. Pela sua presença fraterna, lúcida e sabia entre nós ao longo destes anos”, diz o convite.
Ao longo de décadas de experiência e de uma simplicidade inigualável, Irmã Juliana deixa como mensagem aos jovens o segredo para se chegar aos 100 anos com a mesma vivacidade que ela apresenta: paciência. “Precisamos ter paciência. A oração é muito importante. Tudo chega ao seu tempo, mas temos que ter coragem para trabalhar e enfrentar a vida. A vida religiosa vale a pena quando vivida no amor, na fidelidade e na obediência. A falta de vocação me entristece muito e me deixa preocupada, mas, como disse Madre Elisa, se esta congregação é de Deus, florirá.”
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