Com obras do governo, Juruá vive nova fase na modernização de suas cidades

Com obras do governo, Juruá vive nova fase na modernização de suas cidades

Texto de Arison Jardim || Fotos de Sérgio Vale

Rio Branco - 21 de fevereiro de 2018

A oeste do Acre, na região do Rio Juruá, duas cidades renascem com as obras de Saneamento Ambiental Integrado, do governo do Estado. Porto Walter e Marechal Thaumaturgo passam por uma transformação estrutural que garante mobilidade e dignidade para os moradores, gente que constrói dia a dia uma vida acreana.

Imerso na floresta amazônica, esse cotidiano transformado é contado por cada personagem afetado tanto pelas obras concluídas quanto pelo trabalho que segue ocorrendo, faça chuva, faça sol. Os 16 mil habitantes de Marechal e os 10 mil de Porto Walter são testemunhas de uma revolução na construção civil e saneamento da Amazônia. No fim do último ano, o governador Tião Viana realizou a entrega de importantes etapas das obras nas duas cidades.

Para quase reconstruir essas cidades é preciso uma logística e organização impecáveis, tem que se aproveitar os momentos de água no rio e de muito sol nas obras. O Rio Juruá é parte importante desse processo, é o único caminho para que os insumos e equipamentos cheguem aos dois municípios. É também um caminho rico de história e cultura.

A balsa levou 26 dias de viagem entre Cruzeiro do Sul e Marechal Thaumaturgo, devido a seca inesperada do rio (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Gerson Anastácio de Carvalho é o prático (espécie de especialista do rio) da Balsa Pulcallpa, que leva manilhas de concreto e já levou brita, areia, equipamentos e diversas outros materiais para a obra de Marechal Thaumaturgo. Com muitos anos de experiência, ele conhece cada curva do Juruá, sendo capaz até mesmo de lembrar quantas voltas foram mudadas pelo curso d’água ao longo de sua vida. “Ontem à noite, contei 21 voltas que o rio arrombou, mudando seu curso desde que eu comecei a navegar por aqui”, afirma.

A balsa que Carvalho guia enfrentou, por mais de três meses, o desafio que é levar uma carga pelo Juruá, saindo de Manaus, no Amazonas, dia 5 de dezembro de 2017. No fim de janeiro deste ano a tripulação já estava fazendo a segunda viagem para Thaumaturgo, está agora com mais dificuldade devido à repentina descida do nível da água. Por mais de duas semanas a balsa teve que ficar aportada entre Cruzeiro do Sul e Porto Walter, esperando uma cheia do rio.

Ao longo do rio também é possível conhecer diversas comunidades ribeirinhas que seguem a tradição da produção de farinha de mandioca como atividade principal. Na beira do Juruá, seguem um caminho de vida longe das cidades e em contato com a natureza.

Porto Walter

“Fico muito feliz, porque hoje olho aqui da minha porta as crianças brincando e correndo na rua, de tardezinha, tudo enxutinho, sem molhar os pés. Isso aí fica cheio de criança de bicicleta, uma animação medonha”

Francisca de Abreu Silva – Porto Walter

A cidade de Porto Walter, margeada pelo Rio Juruá, é uma das localidades surgidas a partir de antigos seringais que passaram de vila a município. A história de sua população é retrato da trajetória do município, que hoje, enfim, pode usufruir uma mudança urbana com saneamento e qualidade de vida.

Temos um bom exemplo disso no bairro Floresta. Hoje recebe esse nome, mas há alguns anos tem vivido diversas transformações, como os moradores Francisco de Assis da Rocha e Francisca de Abreu Silva. Os vizinhos tiveram trajetórias diferentes, mas são testemunhas desse novo caminho acreano, que valoriza o bem-estar.

“Aqui antes não tinha bairro, era zona rural. Só tinha as áreas para a gente andar dentro do ‘lamedo’ [lama]. O lixão ficava acolá, aí chamava aqui de Bairro do Lixão também”, conta Rocha, que chegou à área em 2011, vindo de sua colônia, um ex-seringal, a fim de buscar estudos para o filho.

Junto de outros moradores que foram chegando, ele sempre lutou pela construção das ruas e distribuição de água. “O senhor hoje está aí vendo a rua feita, falta agora só a calçada para os pedestres. A rede de água foi feita de uma ponta a outra, está todo mundo sendo abastecido. A rua é boa, de primeira qualidade. O que eu tenho é agradecer”, afirma.

“A rua é boa, de primeira qualidade”, afirma Assis (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Algumas casas depois, a senhora Francisca abre sua casa para falar de sua alegria com o novo momento. “Fico muito feliz, porque hoje olho aqui da minha porta as crianças brincando e correndo na rua, de tardezinha, tudo enxutinho, sem molhar os pés. Isso aí fica cheio de criança de bicicleta, uma animação medonha”, conta.

Nascida em um dos seringais longe do rio, seu sonho era ir para a beirada do Juruá, onde se sentiria menos isolada. O percurso de sua vida, desde pequena, não foi fácil. Sem a presença do pai, ajudou a mãe no trabalho de cortar a seringueira e alimentar os irmãos.

“Minha mãe nos criou com o leite do cocão. Nunca soube o que era leite mesmo. Ela ia para a mata, tirava os cocos e fazinha nossa papinha para comer. Ela plantava cana-de-açúcar também, aí ela batia, fazia nosso angu também”, relembra, enquanto agora mostra a nova morada e a ampla cozinha com as panelas penduradas na parede.

O município, assim como seu Bairro Floresta, passou de uma colocação de seringal para uma cidade que começa a se estruturar. “Em Porto Walter, o governo já entregou quase cinco quilômetros de pavimento de um total de 13 quilômetros. O desafio desse ano é fazer a conclusão dessa pavimentação no município. As obras estão bastante adiantadas”, explica Edvaldo Magalhães, diretor-presidente do Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento (Depasa).

Marechal Thaumaturgo

Neuda Pereira, ao lado da mãe – Marechal Thaumaturgo

"Hoje moro numa rua muito da sua bacana, porque, na minha idade, estar saindo assim não é fácil”

Mesmo mais distante da cidade de Cruzeiro do Sul e próximo às cabeceiras do Rio Juruá, Marechal Thaumaturgo tem uma população maior que Porto Walter e uma movimentação também maior. Logo ao amanhecer do dia, é possível ver a crescente saída e chegada de canoas nas margens do rio, conforme o sol vai subindo e as obras vão concluindo, carros e motos também começam a trafegar pela cidade.

Neuda Pereira, moradora de uma das ruas recém-concluídas, representa a tradição de quem cresceu nas comunidades ribeirinhas e após muitos anos de luta, descansa na cidade. “Nasci e criei 17 filhos lá na foz do [Rio] Tejo. Agora, depois de idosa, vim para Thaumaturgo. Hoje moro numa rua muito da sua bacana, porque, na minha idade, estar saindo assim não é fácil”, declara a senhora, que por muitos anos trabalhou como parteira e cortou seringa com a família.

“Quando me lembro da Thaumaturgo, era na lama. A gente vinha no Novenário [São Sebastião] e era lama no meio da canela, depois botaram umas tábuas, que era pior, porque a gente escorregava”, relembra Neuda. Ela, que nunca pensou em morar em uma cidade, pode viver agora mais tranquila, pois Marechal está agora com quase todas suas ruas pavimentadas com concreto, tendo suas calçadas feitas e com uma mobilidade urbana crescente.

O tráfego de veículos se tornou mais rotineiro com as ruas pavimentadas (Foto: Sérgio Vale/Secom)

“Muitas pessoas que não andavam de moto com medo, agora andam, porque as ruas oferecem mais segurança. Era muita lama”, afirma o mototaxista Idelberto da Silva. O que para quem mora em cidades maiores é comum, para esse pequeno município no extremo do Acre é uma novidade em seu cotidiano: o movimento de carros e motos.

Idelberto aproveita também para dar um alerta para os colegas que trafegam: “É perigoso acidente agora, porque tem gente que abusa e põe as vidas das pessoas em risco. Para quem anda rápido, ele tem que ter certeza que a vida é só uma”. Uma das próximas etapas é a sinalização das ruas, incluindo a construção de lombadas.

Uma das ruas mais movimentadas, com carros, motos, bicicletas e diversas pessoas passando é a Rua Raimundo Bezerra, que chega até o porto recém-construído. Ali, em uma das esquinas mora Wilian Prexedes, cruzeirense que está há 11 anos na cidade, onde formou sua família e agora construiu uma lanchonete.

“Quando cheguei aqui, só existia caminhos, tipo uma trilha, e a gente andava de botas ou sacolas nos pés. Hoje está mudando, o governo investiu em Marechal Thaumaturgo e você vê essas ruas que fazem uma mudança na vida das pessoas”, afirma Wilian. “Erra difícil até ir no vizinho”, complementa, explicando o que pôde ver de mudança: “Hoje abri um lanche, era impossível de pensar há um ano fazer isso aqui. Agora aqui é a principal avenida”.

A pavimentação das ruas de concreto foram concluídas nesse mês de fevereiro (Foto: Sérgio Vale/Secom)

Essa cidade, que há muitos anos foi território peruano e palco de diversas batalhas até que se tornasse brasileira, é um dos quatro municípios acreanos, ditos isolados, que estão tendo seu cenário urbano modernizado.

“Para se ter uma ideia, em Marechal Thaumaturgo, até o fim do mês de fevereiro, o governo irá concluir toda a parte de pavimentação. São oito quilômetros e meio, e vão ficar faltando os outros serviços na área de esgotamento sanitário. Vamos colocar um novo sistema de água para funcionar até o fim de março e tratar de aterro sanitário e outras questões a partir da metade do verão”, afirma Edvaldo Magalhães.

Todo esse investimento faz parte do Programa de Saneamento Ambiental e Inclusão Socioeconômica do Acre (Proser), que desde 2014 é conduzido pelo Depasa e pela Secretaria de Estado de Planejamento (Seplan). O governo aplica cerca R$ 100 milhões em distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto, pavimentação, drenagem, coleta e destinação de lixo nesses quatro municípios de difícil acesso.

Além de Marechal Thaumaturgo e Porto Walter, Jordão e Santa Rosa do Purus também são contemplados.

Saiba mais sobre as obras nos outros municípios