Mulheres da segurança pública: combatentes na profissão e na vida

Mulheres da segurança pública: combatentes na profissão e na vida

Texto de Rayele Olivera || Fotos de Angela Peres e Galeria de Wellington Mota || Diagramação de Adaildo Neto

Rio Branco, 8 de Março de 2018

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Nós lidamos com situações extraordinárias e atípicas, além dos longos plantões. Já houve momentos depois de chegar em casa em que me vi entre a escolha de descansar ou dar atenção aos meus filhos, e sempre escolhi pela minha família


major Cleifa Taumaturgo
Sobre a difícil tarefa de se dedicar à carreira militar e lidar com os compromissos familiares e sociais

Em 2002 ela ingressava como soldado à Polícia Militar do Acre (PMAC) e em 2005 participava do Curso de Formação de Oficiais (CFO). De lá para cá, já são muitas horas de trabalho executado a favor da sociedade, quer seja nos batalhões ou nas demais unidades da corporação. Com formação na área jurídica, a major Cleifa já passou pelo Gabinete Militar e há mais de dois anos dá sua contribuição à Corregedoria da instituição.

E conciliar o tempo é com ela mesmo. Mãe de dois, ela conta que a vida lhe escolhera para um desafio ainda mais especial: cuidar de uma filha com paralisia cerebral. “Quando a gente não está no trabalho, está na terapia ocupacional, no tratamento dela, nesse cuidado diário que só quem passa pela mesma situação entende e que exige toda perseverança pra vencer”, relata.

Aos 37 anos, ela se diz forjada pelas missões que lhe são impostas, na profissão e na vida. E não são poucas.

Servir e proteger – uma missão em comum

Assim como Cleifa, Vânia Andrade e Adriana Araújo escolheram ingressar em carreiras na Segurança Pública. Mesmo em áreas distintas, como agentes da Polícia Civil, a missão é a mesma: estar a serviço da população.

Vânia prestou concurso para a Polícia Civil há dois anos e integra o Grupo de Treinamento Policial (GTP). Da mesma turma, Adriana atua na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Esta última, com formação em Direito, afirma ter recebido influência direta do pai para a escolha da profissão.

Meu pai é policial e cresci nesse meio. Quando veio a faculdade, então, já tive a pretensão de ir para essa área policial também e me sinto completamente realizada por isso


APC Adriana Araújo
Atua na Delegacia de Homícidios e Proteção à Pessoa

Já Vânia, 32 anos, destaca que se sentiu atraída pela carreira civil em razão da admiração ao empoderamento das mulheres que passaram a conquistar cada vez mais espaço nas atividades policiais.

Mesmo em um ambiente predominantemente masculino, nunca fui tratada com desigualdade pelos colegas. Pelo contrário, conseguimos dar respostas juntos a todas as missões que surgem


APC Vania Andrade
Atua no Grupo de Treinamento Policial

Além da realização pessoal com a profissão, Vânia tem um motivo a mais para insistir na busca pelo zelo com o que faz: um filho, seu maior admirador, de apenas oito anos. “Ele fala de mim para os colegas com muita admiração, diz que a maior alegria é ter uma mãe policial. Vive me pedindo para um dia ir buscá-lo na escola vestida com minha farda. Pra mim, não pode existir orgulho maior que esse!”, enfatiza.

Elas também comandam

Quem vai ao Batalhão do Corpo de Bombeiros, no bairro Rui Lino, se depara com uma cena incomum a outros tempos: uma mulher comandante de guarnições e que até dirige os caminhões da corporação. De baixa estatura e porte físico nem tanto atlético, a soldado Ismaira Argolo só aparenta ser frágil. Mas ela e os combatentes que comanda sabem que a história não é bem assim.

À frente da guarnição de salvamento há um tempo, Ismaira já coleciona diversos momentos emocionantes da lida com o trabalho operacional. Sobre o mais marcante, ela conta: “Uma vez uma mulher entrou em contato com o Bombeiros porque estava prestes a dar à luz. Acionamos o Samu, o que é o procedimento correto, mas mesmo assim fomos ao local. Quando chegamos lá, a criança já havia nascido e fomos os primeiros a ver, cortar o cordão umbilical e prestar os primeiros atendimentos. Além de situações como a de um primeiro incêndio, que a gente nunca esquece, dessa eu também nunca vou me esquecer”.

Certa vez ligaram pedindo socorro para um animal. Quando chegamos ao local, um gatinho estava preso entre duas paredes e entrou pelo cano de um banheiro. Foi bem delicado, porque tivemos que pedir permissão pra quebrar uma das paredes e resgatá-lo



Segundo Ismaira, há casos que não competem à instituição, e, mesmo assim, todos são atendidos com atenção.

Essa é a parte mais apaixonante da profissão. Todo mundo que procura a corporação busca socorro ou uma simples resposta. E poder se sentir útil na vida de alguém, ajudar o outro, é muito engrandecedor



Sabendo que precisa lidar com demandas que surgem a qualquer momento, e como toda missão dada é missão cumprida, a soldado se mantém a postos sem descuidar da beleza inerente a qualquer mulher, vaidade que se percebe de longe. Com seus olhos marcantes por seus longos cílios e um batom rosa nos lábios, ela sempre está lá no comando, pronta para o próximo chamado.

Espaço conquistado

Nesse Dia Internacional da Mulher, assim como Ismaira, outras integrantes da corporação comemoram avanços quando se fala de direitos, como a porcentagem de vagas destinadas às mulheres nos concursos desde 2007, bem como a criação de um teste de aptidão física específico para homens e mulheres, a adaptação da estrutura física dos alojamentos para o gênero, o envio de mulheres para compor a Força Nacional e o curso de formação das primeiras oficiais.

Temos consciência de que homens e mulheres não são iguais fisicamente e nem estamos aqui para medir forças, mas para provar que juntos podemos fazer mais pela sociedade



Seja no Corpo de Bombeiros, em qualquer outra área militar ou civil, a verdade é que elas cumprem a maior de todas as missões: a de ser mulher. São âncora do barco de suas vidas, são esteio quando as intempéries ameaçam a navegação. E fragilidade não tem muito a ver com elas. Nem têm tempo para isso.