O Amor Salva a Juventude

O Amor Salva a Juventude

Texto e Fotos: Alexandre Noronha || Revisão: Deyse Cruz e Elson Martins || Diagramação: Adaildo Neto

Rio Branco, 2 de dezembro de 2018

Nem parece que, aqui em Rio Branco, faz tanto tempo assim que no fim da tarde as crianças saíam para brincar na rua. A gente brincava da barra, jogava bets, esconde-esconde e os outros meninos jogavam bola e soltavam pipa, mas eu mesmo nunca fui bom nessas coisas.

Lá em casa, o muro era baixo. O que presenciávamos de crime nessa época era só a inconveniência de perder um boné quando estávamos na rua e um menino passava correndo de bicicleta e pegava da nossa cabeça. Eu que nasci no finalzinho dos anos 80 tive essa infância.

Nem lembro quando percebi que não era pela estética que as casas que se enchiam de grades, mas pela segurança. Passando a infância e adolescência no centro da cidade, ali no bairro Aviário, não percebi a explosão urbana que a capital acreana estava passando.

De acordo com o historiador Marcus Vinicius Neves, “nos anos 70, com a Ditadura Militar e a crise do extrativismo, o governo (nomeado) Dantas estimulou a vinda de grandes empresas, fazendeiros e especuladores de terras para o Acre, em pouco tempo um terço das terras acreanas mudou de mãos”, explica. Diz também que o desmatamento e as transformações dos seringais em fazendas ocasionou o êxodo de milhares de famílias que há décadas moravam na floresta.

Foi por conta desse movimento que se iniciaram as chamadas “invasões”, que deram origem a novos bairros populosos, mas sem nenhuma estrutura básica. Em 90 anos, a cidade de Rio Branco se resumia a pouco mais de uma dezena de bairros, mas entre 1970 e 1999 esse número iria passar de 150. E assim se formava a periferia da capital.

Enquanto isso tudo acontecia no Acre, no Sudeste do país se formavam os maiores grupos criminosos do Brasil. No Rio de Janeiro, final dos anos 70, surgia a primeira. Enquanto em São Paulo, uma facção local tem sua origem em 1993.

As duas organizações criminosas seguiram alinhadas por quase duas décadas. O racha começou pela disputa de rotas do tráfico, antes dominada por Jorge Rafaat Toumani, o “Rei do Tráfico” no Paraguai, que, sozinho, controlava as rotas e revendia para facções brasileiras. Ele foi assassinado numa ação gigantesca orquestrada pelo grupo paulista. Então, desde 2016, as facções paulista e carioca disputam as maiores rotas de maconha e cocaína na América do Sul, pois o vencedor dessa disputa pode ganhar poder para dominar toda produção, comércio e distribuição das drogas.

A organização paulista dominou a principal rota do Paraguai, herdada de Jorge Rafaat. Então, o grupo carioca se viu obrigado a achar outro caminho: a Amazônia. No Amazonas se aliou a terceira maior facção do Brasil, surgida em Manaus. Por lá, conseguem entrar com maconha e cocaína vindas da Colômbia.

Já o Acre é disputado por fazer fronteira com a Bolívia, terceira maior produtora de cocaína do mundo e ainda com o Peru, segundo maior produtor da droga e maior produtor da folha de coca, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Com uma fronteira de quase 2.000 km entre florestas e rios, nosso estado se torna um corredor vulnerável para as drogas.

A Guerra no Acre

Depois de declarada, a guerra entre as duas facções não demorou a chegar ao Acre. Meses depois da morte do Rafaat, em 2016, os confrontos chegaram ao nosso estado. Aqui o grupo paulista é aliado de uma organização local, surgida dentro do Presídio Francisco D’Oliveira Conde, em 2013.

A rivalidade não se restringe aos presídios. Aqui fora a corrida pela dominação também acontece. Os bairros são disputados entre elas e disputados a preço de sangue. Quando conquistam uma região significa que possuem mais um território para o tráfico.

E foi essa guerra que colocou o Acre na lista dos estados brasileiros com maior número de assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes. Se até 2015 seguíamos a média nacional de homicídios, em 2016 pulamos para quinta capital mais violenta do país e ainda em 2017 ficamos em primeiro lugar, proporcional ao número de habitantes. Os dados são do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

Quando uma região é dominada, além do controle da venda de drogas local, há também a chance de conseguirem arregimentar mais jovens daquele espaço. Essas pessoas são alvos valiosos para o crime. A criança e o adolescente estão ainda em fase de construção e são a todo momento assediados por ideias de poder, dinheiro e o mais importante: pertencimento.

Muitos vêm de uma família disfuncional de onde, muitas vezes, não se sentem pertencentes, e são acolhidos pelo tráfico. Eles também chamam suas facções de “família”. Alguém que nunca se sentiu parte de um grupo recebe proteção, “família” para proteger e um papel para desempenhar… Não parece um alvo tão difícil, não é?! Tantos outros entram ainda porque se sentem responsáveis pelo sustento do lar ou buscam uma ascensão social para sua casa.

Em todo o bairro eles são persuadidos. Enquanto andam na rua ou quando jogam bola nas quadras, e ainda mesmo em várias escolas. Esse assédio é algo difícil de ser notado pelas autoridades. E são justamente esses jovens as maiores vítimas, os que mais morrem têm entre 15 e 29 anos, segundo Atlas da Violência do Ipea.

Como entram e como não saem

Como não sou especialista no assunto, precisei entender como funciona esse mundo a partir da perspectiva de quem vivenciou. Pude sentar e conversar com dois adolescentes que passaram por isso. Me explicaram que geralmente o jovem começa “colando” com os já faccionados. “Colar” na gíria deles é andar junto.

Ao andar juntos, eles começam também a ajudar nos crimes: venda de drogas, furtos, roubos, brigas ou mesmo apenas avisar da chegada da polícia no bairro. Mas existe sempre as “leis” aplicadas pelas organizações, como não roubar muito no próprio bairro.

Depois que o jovem ganha confiança da facção, ainda precisa de duas coisas para ser “batizado”. A primeira é ter um padrinho: só entram jovens com indicação de um membro. Depois disso, precisa cumprir uma prova passada pelos chefes; que pode envolver fazer um assalto e repassar a maior parte do lucro a eles, ou até mesmo matar algum rival.

O problema mesmo é sair. Depois que o jovem entra, a saída fica quase impossível, geralmente ele morre antes. A jornada no mundo das facções é intensa, porém curta.

Como tudo isso ainda é muito novo no nosso estado a busca de uma solução ainda têm sido estudada. Mas com intenção de salvar jovens, e consequentemente toda sociedade, conscientizando-os ainda no começo de suas vidas criminais ou mesmo tentando resgatar os que já entraram, o governo do Estado e Ministério Público do Acre criaram projetos ousados.

Eu tive a experiência de ir pessoalmente conversar muito com dois jovens envolvidos. Um deles conheci no Centro Socioeducativo Acre, onde está preso; o outro, cumpre medida socioeducativa em liberdade. Pegamos ônibus juntos e fomos andando da parada até sua casa, onde sentamos e passamos a tarde toda conversando. Foram conversas que me marcaram muito e me fizeram ter uma visão diferente sobre a própria sociedade. Busco nessa matéria contar um pouco da história desses dois jovens, que se agarraram à oportunidade de mudar de vida.

Escolha sobre quem você quer conhecer primeiro, é só clicar na foto:

Roderick Alves da Silva é um menino negro, de altura mediana, meio desengonçado e tímido, porém simpático. A história de vida dele talvez seja a mais impactante que já ouvi

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