Cirurgiã pediátrica do Acre ganha prêmio internacional nos EUA

Cirurgiã pediátrica do Acre ganha prêmio internacional nos EUA

Texto: Mágila Campos || Diagramação: Andrey Santana

Rio Branco, 7 de dezembro de 2018

No leito 41, ela brinca com a pequena Noemi, uma garotinha de apenas um ano de idade que se recupera da cirurgia de Megacólon Congênito, que durou seis horas. A mãe, Marta Nascimento, de pé ao lado da cama, conta para a médica, em tom de gratidão, como a filha está se recuperando bem.

“Não faz nem uma semana que ela foi operada e já toda está ‘espertinha’, brinca e nota tudo que acontece por aqui. Vocês viram que antes de entrarem na sala ela já estava vendo e chamando através do vidro?”, conta, aliviada, a mãe, que viveu dias de angústia.

A doença de Noemi se caracteriza pela dilatação do intestino grosso, acompanhada de dificuldade para eliminar fezes e gases, razão que apavorava Marta. “Eu tinha muito medo de ela morrer. Tinha medo até de dar comida e ela passar mal, por isso dava só o peito mesmo”, relembra.

Após o sucesso do procedimento cirúrgico, a mãe conta, emocionada, que a médica deu à sua filha a possibilidade de ela ter uma vida normal no futuro. “Para mim, depois de Deus, vem a doutora, porque, além de ser uma boa médica, é como se ela tivesse dado a vida novamente para a minha filha.”

A médica alegre e atenciosa, pela qual a dona de casa tem tanta gratidão, é Fernanda Lage, ganhadora do prêmio internacional Cirurgiã da Comunidade (em inglês: Baxiram S. and Kankuben B. Gelot Community Surgeons Travel Award for the Year 2018).

Fernanda Lage é a única cirurgiã pediatra do Acre (Foto: Arquivo Pessoal)

O prêmio é uma honraria dada a médicos que trabalham em áreas remotas do mundo e tomam conta de comunidades carentes, ofertando serviços de alta qualidade para populações que não podem pagar por tais atendimentos.

Lage faz isso. Há 13 anos, ela é a única cirurgiã pediatra do Acre. Desde então, é pelas mãos dela, e de sua equipe, que “acreaninhos” como Noemi são tratados, salvos e têm a chance de ter uma vida adulta saudável. Ao todo, ela já operou mais de duas mil crianças no Acre, sendo que 500 delas tinham má-formações congênitas graves.

Reconhecimento

Cirurgiã da Comunidade é um reconhecimento internacional do Colégio Americano dos Cirurgiões (ACS) dos Estados Unidos (EUA).

“Receber reconhecimento mundial é muito legal, porque esse prêmio é dado a cirurgiões que trabalham com pouco recurso e conseguem fazer um trabalho de excelência como se estivessem em um local com muitos recursos. Porque trabalhar em hospitais com muitos recursos, como eu vi lá nos Estados Unidos, é muito fácil! Você ‘estala os dedos’ e está tudo na mão, mas você fazer este trabalho com poucos recursos é um esforço dez vezes maior. Costumamos dizer que temos que matar um leão por dia”, destaca.

Apesar de estar contente pelo destaque e pela visibilidade internacional de seus esforços, a médica conta que tem algo que a deixa mais feliz. “Para mim, a melhor sensação do mundo é eu estar no meu ambulatório e de repente chegar uma criança que eu conheci recém-nascida, que ia morrer, e hoje já está com três ou quatro anos de idade, correndo e falando, tendo uma vida normal. Isso é muito gratificante e não tem prêmio nem dinheiro que pague isso”, conta.

Lage foi escolhida entre os pediatras do mundo todo como exemplo de cirurgiã que atende comunidades carentes com serviços gratuitos, associado à propagação de ideias e de conhecimentos para garantir a alta qualidade da prática cirúrgica e melhorar o atendimento dos pacientes de sua comunidade.

Isso porque, além de atender as crianças no Hospital da Criança e Hospital das Clínicas da região, a pediatra é preceptora de residência médica, do curso de Medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac). Além disso, é ela, sozinha, que treina os acadêmicos para serem médicos e os médicos para serem cirurgiões pediátricos.

Experiência em Boston

O prêmio lhe rendeu ainda uma experiência de estágio de três semanas no Hospital das Crianças de Boston (Estado de Massachusetts), considerado o melhor hospital pediátrico dos Estados Unidos, que é associado à Universidade de Harvard.

“Foi maravilhoso, porque tive a oportunidade de aprender novas formas de tratar algumas doenças. jeitos novos de olhar para algumas enfermidades, porque antes fazíamos certos procedimentos e, hoje em dia, as coisas se modernizaram, existem novas formas de tratamentos”, explica.

A pediatra foi escolhida entre todos os cirurgiões do mundo (Foto: Arquivo Pessoal)

Representar o Acre

Além disso, a médica explica que teve a oportunidade de representar o Acre no exterior. “No último dia eu dei uma palestra para a equipe de cirurgia pediátrica e residentes, contando um pouco sobre o que faço aqui no Acre. Apresentei dados e imagens da nossa população, e consegui mostrar que mesmo com poucos recursos conseguimos melhorar a vida das pessoas”, conta.

Ela conta ainda que o estágio foi uma via de mão dupla: “Foi uma experiência incrível, porque eu pude aprender e também ensinar um pouquinho de como fazemos na Amazônia. Lá, tinha médicos experientes, mas também alguns residentes, e eles precisam saber que, às vezes, a dedicação de um médico conta muito mais do que um aparato tecnológico”, conta.

Participação em Congresso

Após voltar dos EUA, a médica foi convidada para participar também do Congresso Brasileiro de Cirurgia. “Tive a oportunidade de mostrar para todos os cirurgiões pediátricos do Brasil o trabalho que eu desenvolvo aqui, e também avaliar o que ocorre no resto do país”.

Segundo a especialista, os resultados foram surpreendentes. “Fiquei feliz em ver que temos um índice de mortalidade bem parecido com os grandes centros: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília – apesar da carência de pessoas e de exames. E só conseguimos esses resultados muito bons, porque contamos com a dedicação dos nossos profissionais”, ressalta.

Lage no Congresso Brasileiro de Cirurgia Pediátrica (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma carioca na Amazônia

Quem a ouve falando assim com tanto carinho do Acre nem imagina que ela não é filha destas terras. Lage nasceu no Rio de Janeiro e se mudou para o Acre em 2005. “Foi o amor que me trouxe para cá. Eu sou carioca e me casei com um médico acreano, e por amor também à profissão fiquei aqui. E desde então me dedico a cuidar das crianças amazônicas, e acho que eu consegui bons frutos”, conta sorridente.

Fernanda é formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem mestrado pela Universidade de São Paulo (USP). Indagada sobre os motivos que a fizeram escolher o ramo da cirurgia pediátrica, a médica conta com brilhos nos olhos: “Não fui eu, esta área me escolheu, eu gosto muito da parte da cirurgia, pois tem uma alta resolutividade, porque você consegue com suas mãos resolver de forma rápida um problema muito grave”, explica.

Fernanda se mudou para o Acre em 2005 (Foto: Alexandre Noronha/Secom)

E exemplifica: “Porque às vezes a gente dá o remédio e temos que esperar um ou dois meses o paciente melhorar. E quando a gente faz cirurgia, tem ali uma situação crítica, em que o paciente pode morrer, a gente faz o trabalho manual e em poucas horas o paciente está curado. Isso é emocionante é me dá muita satisfação”.

Entre os muitos campos de atuações, as correções de malformações congênitas, são as grandes especialidades da pediatra, mas ela também se dedica a outras cirurgias como: neonatal, hérnia diafragmática, atresia de esôfago e doença de Hirschsprung.

Projetos futuros

Atualmente, Lage é responsável por realizar mais de 80% das cirurgias infantis de baixa complexidade do estado, e por isso, pretende criar, futuramente, uma Ong para continuar cuidando das crianças acreanas, que hoje somam mais de 33% da população de 869, 3 mil habitantes.

“Nesses anos eu contei com o apoio do governo que me levou para fazer treinamentos, e com o básico para meus atendimentos. Mas chegamos numa hora em que o SUS não tem mais recursos, mas as crianças continuam nascendo, continuam precisando”.

Para continuar executando o trabalho de qualidade a médica irá buscar parcerias internacionais, a fim de angariar recursos tecnológicos e de materiais.

“Eu pretendo criar uma Ong para ajudar crianças com malformação congênita e para isso vou buscar parcerias. Não para receber dinheiro, mas materiais, para que eu consiga ter um ambulatório bem construído e uma equipe multidisciplinar, porque só um médico não traz saúde. Você precisa de médico, enfermeiro, psicólogo, nutricionista”, explica.