Produtores defendem o roçado sustentável e mostram benefícios

Produtores defendem o roçado sustentável e mostram benefícios

O trabalho árduo e diário das famílias na agricultura mostra, ano após ano, ser um meio de produção eficiente e rentável. Além de um importante meio de combate à miséria e à fome, por dar oportunidade de emprego para um grande número de pessoas, esse modo de cultivar exerce menor impacto sobre o ecossistema. No Acre, a consciência ambiental é de berço para os que nascem nas florestas, assim como de quem conheceu os ideais de trabalho e conservação de líderes rurais como Wilson Pinheiro e Chico Mendes.

Tarauacá e Feijó, municípios na região central do estado, têm em suas histórias o grande comércio de látex nativo no começo do século passado. Após seu declínio, a agricultura e a criação de gado passaram a ser o principal meio de viver na Floresta Amazônica.

Tradicionalmente, a técnica mais usada para abertura de novas áreas para o plantio é a derrubada das árvores e o uso do fogo, com impacto negativo para o ambiente e para o solo. Contraponto a isso, uma nova tecnologia está ganhando adeptos: a adubação verde com o uso da mucuna, ou outras leguminosas forrageiras que corrigem o solo e serve como adubo, dispensando a queimada.

Apesar de ainda despertar desconfiança entre alguns, os efeitos de preparo do solo com adubação verde são bastante satisfatórios. Francisco Nascimento, morador do Ramal Bom Futuro, no Projeto de Assentamento Envira, antigo Seringal Benfica, em Feijó, é um dos que não abrem mão dessa tecnologia. “O fogo destrói tudo e a mucuna arruma tudo. Pode ver que minha mata está bem aí, se eu estivesse brocando tudo já tinha acabado com ela, que boa foi essa alternativa que o governo deu”, afirma.

Nascido em um seringal no Rio Tarauacá, Francisco, que tem o sorriso solto e constante, vive hoje com a esposa e três filhos em uma área de terra com dois açudes, alguns roçados com banana, milho, abacaxi, mandioca, arroz, mucuna e uma floresta preservada. “A história da gente é difícil de contar e realizar, mas graças a Deus, estou realizando”, revela.

“O fogo queima tudo e a mucuna arruma tudo. Eu sempre peço pros meus amigos, vamos preservar a natureza que é melhor para nós”

Francisco Nascimento

A fartura na produção é resultado da técnica que aplica em sua área, plantando a leguminosa para corrigir o solo enquanto faz um revezamento entre os roçados. “É só plantar mucuna, sem queimar o mato, depois esperar quatro meses e brocar [limpar o terreno]. Aí você faz um roçado sustentável e planta o milho, a roça [mandioca], mamão, o que você quiser”, explica o agricultor.

Segundo estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a mucuna “forma associações simbióticas com bactérias dos gêneros Rhizobium e Bradyrhizobium, fixadoras de nitrogênio atmosférico”. Isso faz com que quantidades expressivas de nitrogênio fiquem disponível no solo após o corte da planta.

Essa adubação elimina a necessidade de queima quando se faz a rotação de culturas na área de cultivo, o que tem sido, todos os anos, um grande tormento para as cidades do Acre. Quando feito de forma irregular, a queimada corre risco de sair do controle e invadir áreas verdes e até mesmo causar acidentes. Feijó e Tarauacá, em agosto de 2016, tiveram 709 focos de fogo, o maior número de todo o estado.

Francisco, que tem sofrido a fumaça proveniente do fogo em terreno vizinho, acredita que este é um cenário que poderia mudar. “Se todo mundo fizesse como eu faço há nove anos, não estaria nesta situação. O roçado está aí para quem quiser ver. Fogo só uso para fazer a comida”, afirma, enquanto os filhos e a esposa pilam o arroz ao lado da casa.

Ele é firme ao dizer o que mudou em sua terra nesses nove anos: “Quando eu não plantava mucuna, brocava um roçado, de um hectare, em uma ou duas semanas, para plantar dez litros de milho. Hoje, com três filhos e duas roçadeiras, nós limpamos o mesmo espaço em um dia. Eles vão brocando a mucuna e eu já vou plantando. Isso já foi uma boa mudança de vida”.

O prazer em plantar e conservar

No município vizinho, Tarauacá, Raimundo Lima, membro da Associação 1º de Junho, fornecedora assídua do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), também é adepto do uso da mucuna para trato em suas terras. “Não tem paú melhor que a mucuna”, afirma. Toda a comunidade também recebe apoio do governo do Estado com mecanização, realizando destoca e gradagem das áreas.

Há 20 anos morando na comunidade do Socó com sua família, o agricultor tem criado uma verdadeira floresta de frutíferas e madeiras para corte. “Eu acho bonito plantar”, afirma Raimundo, sobre a sombra de uma árvore no terreiro de sua casa.

O prazer pela vida na roça vem desde criança e faz com que cada ação sua carregue o zelo que ajuda a crescer sua produção. “Toda vida, desde criança, quando comecei a trabalhar, gostei da agricultura, minha carreira é essa. Por onde eu ando e vejo uma árvore bonita, eu trago para plantar no meu terreiro. Até mesmo castanha, que trouxe de Rio Branco, fiz dar aqui”, afirma Raimundo, chamando para fazer uma caminhada pela pequena floresta.

Raimundo exibe orgulhoso a floresta que está construindo (Foto: Arison Jardim/Secom)

Subindo e descendo algumas colinas, é possível cruzar um bosque com diversas espécies de árvores, todas plantadas por Raimundo, que, orgulhoso, aponta cada uma: “Essa mata aí é toda plantada. Açaí, cupuaçu, graviola, buriti, cacau, goiaba, pupunha, jatobá, aguano, favela, andiroba, ingá”.

Todo seu esforço tem dado resultado em sua renda. Com a recente entrega, pelo governo do Estado, de uma indústria de processamento de polpa em Tarauacá, administrada pela Cooperativa de Agroextrativistas de Tarauacá (Caet), o mercado cresceu. “Só dessa carreira (caminho) de pupu (cupuaçu), tirei 200 kg de polpa. A pupunha é outro plantio que gosto de fazer porque a renda dela é boa também. Em um pé desses tiro 15 cachos, até 16 dá”, relata.

Além dos ganhos econômicos e sociais que essas diversas famílias têm tido com a agricultura de baixo impacto ambiental, a consciência popular para a preservação tem sido uma lição propagada nas rodas de conversa por Raimundo. Sempre que questionado o porquê de tanto cuidado com sua terra, ele não hesita em responder: “Meu amigo, eu planto isso aí porque um dia posso alcançar e cerrar um pau desse. Mas, se não, vai servir para minha família, filhos, netos, bisnetos, tataranetos”.

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Texto: Arison Jardim || Fotos: Arison Jardim e Pedro Devani