Profissionais de Saúde levam esperança a pacientes com câncer

Profissionais de Saúde levam esperança a pacientes com câncer

Receber um diagnóstico de câncer nunca é fácil, especialmente sendo de um filho de dois anos. Edileuza Rocha sabe bem o que é isso. Em 2010, a mãe do pequeno Thalisso Rocha, recebeu a notícia de que ele estaria com leucemia e pouca possibilidade de cura.

“A minha primeira reação foi de choque, mas no meu coração acreditei que meu filho iria sobreviver sim”, conta. Depois da descoberta, começaram os primeiros capítulos difíceis dessa história.

“Foram dois anos e meio de tratamento. Por quatro meses – noite e dia – fiquei sem poder sair do hospital, larguei mão de emprego e de tudo pra cuidar do meu filho. Foram dias de angústia por ver o sofrimento dele, por que um câncer adoece toda uma família que quer ajudar, mas se sente impotente”, declara.

Equipe da Unacon está em contato com muitos casos de famílias diariamente (Foto: Angela Peres/Secom)

Como o caso dessa família, há diversos outros com os quais a equipe do Hospital do Câncer de Rio Branco se depara constantemente. Entre muitas definições, no dicionário, empatia se refere à capacidade de compreender sentimentos ou reações do outro e conseguir imaginar-se no lugar dele. Para os profissionais que atuam no serviço de Oncologia no Acre, o termo vai além do seu significado, por ser vivido diariamente na prática, quando buscam proporcionar mais qualidade ao atendimento prestado a pacientes que encaram a luta contra o câncer.

O hospital é cadastrado no Ministério da Saúde como Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) e foi inaugurado em 2007, tendo como público-alvo pacientes com a confirmação do diagnóstico. Se antes a maioria dos diagnosticados precisava ser encaminhada para tratamento fora, hoje eles têm a prestação do serviço público no próprio estado, próximo ao ambiente familiar e a uma equipe multidisciplinar que os assiste composta por especialistas, enfermeiros, farmacêuticos, assistentes sociais, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas, além de cirurgiões oncológicos.

Quem doa tempo também doa vida

A técnica fala do amor pela profissão (Foto: Angela Peres/Secom)

Só vou para casa pra dormir”, relata Júlia Albuquerque, técnica de enfermagem da Unacon há cinco anos. Casada e mãe de quatro filhos, em 2004 Júlia sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) por conta de um aneurisma. Naquele ano, foram três meses de total dependência física da família até se recuperar do ocorrido.

Segundo ela, o momento difícil a fez valorizar mais a vida e a despertou para ir em busca da formação profissional na área que sempre quis atuar. “Eu sempre quis uma forma de ajudar as pessoas. Como acredito que tudo na vida tem um propósito, foi na minha angústia que me determinei a me engajar nessa missão de servir, que faço com tato amor”, diz.

Do contato diário com a profissão, Júlia tira a seguinte lição: pode faltar tudo, menos o amor e a capacidade de ouvir. E conclui: “Senti na pele o que é precisar de fato de alguém e dos serviços médicos. É algo que abate, angustia e debilita. Até o tom que se usa pra falar pode determinar a reação de um paciente. É pensando nisso que todos os dias eu entrego o meu melhor ao próximo, sem discriminações”.

Já o enfermeiro Márcio Rodrigues, na Saúde há 11 anos, descobriu no Hospital do Câncer maior afinidade com pacientes adultos e idosos. Na lida com a média ambulatorial de 200 pacientes atendidos por semana na unidade e com as demandas espontâneas do serviço paliativo, Márcio compõe a equipe que leva atendimento até a casa de pacientes em fase terminal. E afirma que o serviço público o levou a compreender, de fato, de que trata a profissão de prestar assistência às pessoas.

Ele explica o quanto pode ser desafiador ajudar pessoas que encararam diferentes estágios do tratamento. “Na quimioterapia a gente tenta fazer com que o paciente tenha uma boa adesão ao tratamento e aos poucos se recupere. E no paliativo o desafio é levar condições para que o paciente tenha o máximo possível de qualidade de vida, já que se encontram mais debilitados”, comenta.

Para Márcio, a oncologia é uma área que traz vínculo com o paciente (Foto: Angela Peres/Secom)

Estar diante de quem luta pela vida é, sem dúvida, ter muitas reflexões ao longo do tempo de profissão: “Não é fácil lidar com a intimidade das pessoas, pois isso faz criar vínculos emocionais e às vezes conhecer a realidade social e familiar dos outros é algo que nos choca profundamente. Também é desgastante quando precisamos lidar com o luto das famílias quando alguém não resiste. Por outro lado, viver isso no dia a dia torna qualquer um mais humano, o que é recompensador”.

Doutora Valéria e a difícil missão de salvar crianças

Há dez anos na Unacon, a médica Valéria Paiva acompanha a rotina diária de famílias que precisam lidar com o tratamento contra o câncer infantil desde o diagnóstico. Ainda durante a formação, ela já planejava a especialização na área de Oncologia Pediátrica. “Que árdua missão! É como vencer um leão por dia”, descreve.

Atualmente, a oncologista faz o acompanhamento de aproximadamente 300 crianças, entre as que chegam ao hospital diariamente e as que venceram a doença. Mãe de duas crianças e conhecedora da dor de já ter perdido um filho, Valéria revela que seu trabalho diário se resume em fazer sempre a mesma promessa aos pais: dar o melhor de si para, juntos, lutarem pela cura.

“E quando ela não vem, é como se levasse também um pouco de mim, um filho meu. Essas horas difíceis às vezes me levam a querer desistir, mas sei que é uma missão divina continuar buscando os diagnósticos de cura, o que nos compensa, melhora e engradece nossa humanidade”, diz.

A médica busca sempre dar o melhor de si para que a cura venha (Foto: Angela Peres/Secom)

Ao falar de casos que marcaram sua trajetória profissional, ela enfatiza que toda criança é um ser especial, todo pai é forte na hora de lutar por um filho, toda fé é uma esperança e toda cura pode ser vista como milagre. “A medicina é a ciência de cuidar, no entanto, nem sempre vai resolver o problema. É o amor e a empatia que nos levam a acreditar na vida enquanto existir a mínima possibilidade”, conclui.

Thalisso e a família venceram

Depois de enfrentar o tratamento, Thalisso venceu a leucemia. Quanto à superação, Edileuza atribui ao apoio da família, aos cuidados médicos e à fé. “Hoje eu sei que precisava passar por todos esses momentos pra saber que meu filho é um anjo pra eu cuidar, um presente divino pra me fazer feliz. Foi difícil, mas vencemos”, comemora.

Para a alegria da família do pequeno – hoje com oito anos de idade – em 2013, uma de suas irmãs seria compatível como sua doadora de medula. O que nem foi preciso. Uma série de exames realizados antes do procedimento apontou que não existiam mais células cancerígenas, e era tudo o que essa mãe esperava saber.

Thalisso superou o câncer (Foto: Angela Peres/Secom)

Texto: Rayele Oliveira || Foto: Angela Peres || Design: Adaildo Neto