Ressocializar através da agricultura: uma semente para o futuro

Ressocializar através da agricultura: uma semente para o futuro

Texto Rayelle Oliveira|| Fotos de Kennedy Santos || Diagramação de Adaildo Neto

Rio Branco, 12 de abril de 2018

Era ano 2008 quando Orisvaldo Lima ingressava ao sistema prisional em Rio Branco. Sentenciado ao cumprimento de pena por crime considerado hediondo, quase oito anos foram cumpridos no regime fechado. Atualmente, ele é monitorado por tornozeleira eletrônica e sua história é uma entre tantas que se referem a egressos do sistema que souberam aproveitar as oportunidades de ressocialização.

Fiquei cinco anos cumprindo pena na capital, até que me transferiram pro Quinari, onde completei o restante. Ainda dei muito trabalho pros agentes até um certo dia eu decidir de vez tomar um novo rumo mesmo pra minha vida



Foi com a experiência de sua passagem pela unidade de Senador Guiomard, cidade onde reside com a esposa e filha, que Orisvaldo teve a chance de recomeçar a vida ao lado da família.

Depois de receber qualificação profissional lá dentro na área de horticultura, ele comemora, inclusive, o fato de hoje ter o próprio negócio: uma pequena horta que lhe rende faturamento semanal com a participação de feiras regionais. E quando o retorno não vem como ele espera, não para por aí. “Entrego água e gás. O importante é trabalhar honestamente”, relata.

Desde que passou para o regime aberto, a rotina já é a mesma há três anos: casa e trabalho, trabalho e casa. Ao que ele atribui seu maior motivo de gratidão pelas novas chances que a vida lhe reservara.

As oportunidades que tive lá dentro foram a base de tudo para poder me reconstruir. Foi lá que comecei a trabalhar e vi que a minha ainda poderia ter jeito, eu podia ser um cidadão de bem como estou sendo e não mais uma pessoa fora da lei



A superação de Orisvaldo pode se repetir na vida dos quase 700 internos da unidade do Quinari, também inseridos nos projetos sociais do Iapen com a missão de devolver indivíduos ao convívio social. Para estes, ele deixa uma reflexão.

Não vou dizer que seja fácil, mas a gente vai aprendendo a colher das sementes que plantou. O mais importante é não desistir, tanto pela gente quanto pela nossa família que é quem nunca abandona. Tenho visto que vale a pena lutar por isso



Projeto Raízes da Liberdade

“O trabalho dignifica o homem”, proclama o slogan do Projeto Raízes da Liberdade, realizado na Unidade Prisional de Senador Guiomard, com o objetivo de promover a ressocialização. Recentemente, o diretor-presidente do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), Aberson Carvalho, junto com a direção da unidade e representantes da Vara Criminal da Comarca da cidade, participou da conclusão da primeira fase do projeto: a entrega de uma extensão de terra para o cultivo de hortaliças nas redondezas do presídio.

A área interna já dispunha de um espaço menor para as plantações, que subsidiam o preparo das refeições dos apenados. Já a horta da área externa vai ampliar a quantidade de internos no trabalho e possibilitar a comercialização das hortaliças em maior escala, visto que há procura por parte de produtores que participam de feiras regionais na cidade.

A conquista é resultado de uma parceria privada, por meio da concessão do uso da terra. Toda a articulação foi feita pela direção da unidade, que contou com o apoio da Secretaria de Extensão Agropecuária e Florestal (Seaprof) para a prestação de assistência técnica e do Poder Judiciário local para a aquisição de material de infraestrutura.

A concessão foi feita pelo produtor Alexandre Vasconcelos, morador há 19 anos das proximidades. Segundo ele, nunca foi motivo de insegurança residir ao lado do presídio, pelo contrário: “Eu vejo isso é como uma questão de segurança pra mim e minha família, porque é visível a presença de policiais sempre aqui por perto. Isso me motivou também a ajudar, porque quem está aí dentro precisa de novas chances, e se a sociedade virar as costas poderão a voltar a cometer delitos novamente”.

O Raízes da Liberdade também envolverá a avicultura e a suinocultura, atividades previstas para as próximas fases do projeto. O objetivo do Iapen é tornar a unidade sustentável, com a geração de mais oportunidades de trabalho.

“Essa já é unidade que é referência no estado e que tem investido em qualificação e políticas de ressocialização, o que nos orgulha. Assim teremos cada vez mais presos fora do ócio e mão de obra qualificada para que, no futuro, eles progridam e se reconduzam nas suas vidas tendo uma profissão”, enfatizou o diretor-presidente Aberson Carvalho.