Um dia com o povo Ashaninka

Um dia com o povo Ashaninka

Navegando pelo Rio Amônia, encontramos o povo Ashaninka da Aldeia Apiwtxa, vilarejo que fica a três horas de barco do município de Marechal Thaumaturgo, no Acre.

A cada curva do rio, a impressão que tive é de que estava no cenário de um filme em que eu era o grande aventureiro. Ali, barrancos alcançam facilmente a altura de um prédio na cidade e, muito esporadicamente, surge uma habitação, onde sempre há alguém na janela olhando e timidamente acenando.

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A cada “batida” do motor, vai sendo esquecida a noção de tempo. Apenas a contemplação de tudo aquilo que está à frente se torna importante.

Enfim, o som do motor vai diminuindo e o que se vê em seguida são pessoas que aguardam bem no alto dos barrancos. Pelas silhuetas, percebe-se uma mudança de vestimentas, língua e adereços. É a certeza de que chegamos na Apiwtxa.

Com suas longas kusmas, sua roupa tradicional, os moradores desse lugar possuem semblante expressivo e um aperto de mão firme. Era com eles que eu iria passar os próximos três dias. Após instalar-me e tomar um banho, descansei daquela jornada cansativa e prazerosa.

Na primeira manhã, acordei bem cedo para passear pelo povoado. A primeira cena que vi foi a de quatro crianças, talvez irmãos, numa atividade envolvente, em que estavam todos muito empenhados. Enquanto uma tentava incessantemente acender o fogo com um isqueiro, outra preparava uma panela com mandiocas já descascadas, e outra ainda trazia um tatu já limpo, pronto para ser assado.

Mais adiante, em cada casa por onde passei, alguém desempenhava algum papel, principalmente mulheres e crianças.
Percebi que naquele lugar as pessoas são discretas, desfrutam seu lar com a família e, pelo capricho observado nas habitações, terreiros, plantas e árvores, são muito trabalhadores e prezam por um ambiente preservado.

Coca Ashaninka

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Na varanda de sua casa estava Wewito Piãko, deitado em uma rede, mascando folha de coca, um hábito conhecido pelos moradores andinos, que geograficamente se localizam próximo à Apiwtxa.

Chamou-me a atenção a maneira como Wewito fazia uso das folhas, diferente do que eu já havia usado na Cordilheira dos Andes. Além delas, mistura-se um cipó, e um preparado branco parecido com polvilho, que é armazenado numa pequena cabaça. O cipó é o txamayro, e esse pó branco é o ishiko. Enquanto a mescla torna-se um pouco amarga na boca, adiciona-se um pouco de ishiko à mistura com um “aplicador” de madeira cônico, tornando doce o sabor. Wewito ressalta que, sozinhas, nenhuma das três substâncias tem sabor doce, mas que, combinadas, proporcionam esse efeito. O mais interessante é como o ishiko é adquirido.

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Por meio de um processo de torração de uma pedra encontrada em igarapés distantes, desidrata-se essa peça, depois dissolve-se num recipiente com água e, depois da evaporação, é retirado o pó, semelhante ao processo de extração do sal da água do mar, ou de minério.

Assim como nos Andes, a coca é utilizada para disfarçar a fome, a sede, e tirar o desânimo, assim como dar uma “injeção” de energia em caso de trabalho braçal, ou em longas caminhadas de caça.

Cuidados com a pintura e artesanato

Numa das principais casas da Apiwtxa, encontrei seu Antônio Ashaninka, cacique da aldeia, muito concentrado num delicado processo, sentado no assoalho de palmeira de sua residência.

Cuidadosamente, ele estocava a pasta de urucum, que serve para pinturas tradicionais, em recipientes feitos de bambu, vedados com uma tampa de palha de milho, chamado pototsi: uma peça tão bem trabalhada que nos remete a algo vindo da cultura oriental.

Um a um, seu Antônio, sempre vestido com kusma e amarentsi, um chapéu de penas e fibras muito bem construído, preenchia os gomos de bambu com a ajuda de uma fina tala de buriti.

Contemplação da morada

Caía a noite e já era hora de voltar ao acampamento, gentilmente cedido pelas lideranças de lá.

Sentado diante de sua casa, estava Moisés Piãko, fumando em seu poarentsi, um lindo cachimbo entalhado. Tentei ser o mais discreto possível, pois não queria interferir naquele momento íntimo daquele líder, que olhava em volta como se admirasse todo o trabalho feito pelo seu povo, numa vasta área farta de árvores e fruteiras.

Texto e fotografias por Diego Gurgel || Designer Adaildo Neto