Um rio de muitas histórias

Um rio de muitas histórias

Baseado na máxima do historiador grego Heródoto “O Egito é uma dádiva do Nilo”, o regionalista e escritor Leandro Tocantins, em sua obra “O Rio Comanda a Vida”, afirma: “O rio, sempre o rio, unido ao homem, em associação quase mística, o que pode comportar a transposição da máxima de Heródoto para os condados amazônicos, onde a vida chega a ser, até certo ponto, uma dádiva do rio, e a água uma espécie de fiador dos destinos humanos”.

A história da ocupação acreana está diretamente ligada à história do rio que nomeia o estado.

Uma história milenar, de acordo com o historiador Marcos Vinicius Neves, explica que o Vale do Rio Acre sempre foi muito ocupado, desde os indígenas como o reino Apurinã mais ao norte, entre o Rio Acre e o Rio Xipamano, ou ainda com o povo Manchineri, mais ao sul.

Em ambos pode-se comprovar tamanho povoamento pela presença dos símbolos que hoje conhecemos como geoglifos. E a história mais recente, a povoação desse rio, deve-se à exploração da enorme riqueza de seringueiras de boa qualidade encontradas em suas margens.

Os brasileiros começaram a chegar aqui por volta de 1880, entre 10 e 15 anos antes dos primeiros bolivianos ou peruanos, por conta da facilidade de chegada pelos rios, já que para os próprios bolivianos chegarem aqui, precisavam subir até Manaus (AM) para então pegar a via fluvial e descerem de volta para cá, porque nenhum rio da Bolívia vinha nesta direção, todos correm para o Rio Madeira. Esse fator determinou que o Acre fosse brasileiro.

Porém, as rivalidades não se deram apenas entre acreanos e estrangeiros. Bem mais tarde, em 1904, já em tempos de Vila Rio Branco, que hoje se conhece por “2° Distrito” na capital – não havia nada ainda no “1° Distrito” –, seus cidadãos resolveram se unir para então construírem sua primeira capela católica, a de Nossa Senhora da Conceição, onde colocaram a imagem que já possuíam dessa santa.

Em 1909, desapropriaram as terras do Primeiro Distrito para construírem a cidade de Penápolis, que a princípio seria uma cidade diferente.

Santa vai, santa vem...

Perto dos anos 20, chega a Rio Branco o primeiro bispo, mandado pela Ordem dos Servos de Maria. O “lado de lá” acabou se tornando Segundo Distrito, já que a essa altura Penápolis havia se tornado a parte oficial, onde morava o governador.

Claro que o bispo moraria no mesmo lado do governador, não é? Então a Igreja Católica mandou construir a primeira igreja oficial no Primeiro Distrito, a de São Sebastião, ali onde hoje funciona a Galeria Meta. Só havia um problema: Tinha bispo, tinha igreja, mas nela não havia nenhuma imagem. A única escultura santa que existia era a de Nossa Senhora da Conceição, na capelinha do Segundo Distrito.

Então o bispo decide ir com os padres buscar a santa. Descem barranco, pegam catraia, sobem barranco e vão até a capelinha. O mesmo trabalho se repete para voltar ao Primeiro Distrito.

Quando o povo nota a ausência da santa e se dá conta do que aconteceu, a revolta foi grande. “Manda avisar o Odilon”, alguém disse.

Odilon Pratagi era o delegado de Brasileia, mas que anos antes morara em Vila Rio Branco e foi um dos idealizadores da capela. E ele era um cara sanguíneo, nervoso, entende? Quando soube do acontecido, tacou-se de Brasileia para cá, o que não era moleza. Quando chegou, reuniu os moradores ao resgate da santa – que aos seus olhos havia sido sequestrada pelos padres –, todos armados. Quem não tinha uma espingarda ou revólver ia de facão ou enxada.

Descem barranco, pegam a catraia, sobem barranco, invadem a igreja e tomam a imagem. Lá vai a santa de volta!
Os padres estavam se preparando para voltar e buscá-la, quando o prefeito interveio e teve uma conversa com os dois lados a fim de resolver o imbróglio.

Dia de missa no Primeiro Distrito, Nossa Senhora vem; dia de missa no Segundo, Nossa Senhora vai… Isso até que a escultura de São Sebastião, que vinha da Itália, chegasse.

"O clima tá doido"

A capital foi crescendo ao redor do rio, como é o caso do bairro 6 de Agosto, o primeiro de Rio Branco. A 300 metros de suas margens, mora Lúcio de Souza Brígido, o Nozim Pescador. Nozim tem 61 anos e cresceu nas águas. Ele conta que desde que nem pode se lembrar já acompanhava o pai, também pescador, em aventuras no rio, no qual permaneciam acampados por dias.

“Papai nos criou pescando. Então tenho bem mais de 50 anos de pesca. Ele nos levava no barco desde novinhos, ensinava a dominar motor, montar e desmontar. De primeiro a gente pegava peixe grandão, monstro mesmo, maior do que eu. De primeiro dava muito peixe grande”, afirma.

Apesar de sustentar toda a família com o que ganha em seu ofício, Nozim diz que agora não dá mais tanto peixe porque o rio mudou. “A natureza mudou muito. O rio vai mudando até o percurso. Você vê, ali pra baixo a gente descia com os barcos maiores e passava, mas agora não passa mais, porque o rio aterrou umas partes. Aí tá raso, com quatro dedos de água.”

Ele explica a razão dessa mudança: “De primeiro você andava horas e horas no rio e não tinha colono. Agora, de cem em cem metros tem uma colônia. E isso atrapalhou o rio no sentido de derrubar as beiras, que não se podia derrubar. Você viaja daqui pra Brasileia, tá todo liso. E os fazendeiros estão tomando de conta da nascente fazendo açude, prendendo a água. Por isso que o rio tá assim. Aí vem a natureza e bota pra arrebentar… O clima tá desativado, tá doido. Por causa do homem mesmo. A natureza tá cobrando. Antigamente o rio era direitinho o ano todo. O clima era certo”, lamenta o senhor, que foi criado com o sustento tirado do rio e sustentou a família da mesma forma. Por esse motivo, afirma que ama e ensina, a todos que pode, que devem cuidar do rio, assim como ele.

Quem não acompanhou toda a transformação do clima e do rio foram as crianças que jogam bola no campinho que fica ao lado da régua que mede a profundidade.

Quando elas nasceram, toda essa mudança já havia acontecido. Hoje elas se divertem todos os dias jogando futebol no fim da tarde. Todas também contam que aos domingos é sagrado tomar banho no rio e que, apesar da pouca idade, sabem nadar desde bem cedo.

Enquanto elas brincam lá em cima, Moisés, que é um pouco mais velho, fica sozinho lá em baixo pescando. Diz que faz isso quase todo dia porque acha “divertido mesmo”.

Alagação? Eu acho é bonito!

Quem já presenciou muitas alagações foi Roberto da Silva Maia, que mora há 36 anos no bairro Taquari e diz que antes demorava tempos entre uma alagação e outra, mas “agora tá ocorrendo de três em três ou de dois em dois anos”.

De primeiro demorava 10 a 12 anos “pra dar uma dessa”, afirma o homem, com sua casa que mostra a marca da última alagação a uma altura superior a dois metros em relação ao nível da rua.

O sentimento em relação à alagação é muito pessoal para Roberto: “Pelo costume que a gente tem, eu acho é bonito. Aquele movimento, aquele povo todo…”. Enquanto para Geralda Marques, que morou 10 anos no mesmo bairro, foi uma década de sofrimento. Ela conta que entrou em depressão por conta das enchentes. Diz que trabalhava, mas não tinha mais alegria em comprar móvel nenhum para casa porque tudo estragava quando o rio subia.

Dia 19 de julho de 2014, Geralda mudou de vida, foi morar na sua casa no bairro Cidade do Povo.

“Quando cheguei aqui, posso te dizer: é a maior tranquilidade que tenho na minha vida. Comprei móveis novos, já fiz essa área aqui e tô fazendo lá atrás, com autorização e tudo legalizado. E eu posso te dizer que é só prazer, ó? Aqui eu tenho uma UPA ao meu dispor, tenho um posto de saúde ali de frente pra minha casa, tá vendo, né? Tenho um colégio da minha filha, se eu quiser. Aqui arrumei meu trabalho, que era um sonho que eu tinha”, relata com um sorriso enorme no rosto.

Depois que ela chegou ao novo bairro tem um novo ânimo na vida. Ela não sabia ler, então se inscreveu no projeto “Quero Ler”. Aprendeu a ler e fala toda orgulhosa que em vez de perguntar pras pessoas “que ônibus é esse?”, é ela quem ajuda, porque acha que quem ainda não sabe ler se sente humilhado por ter que perguntar. Hoje ela continua seus estudos no EJA – Educação de Jovens e Adultos.

Se o grande problema dessa antiga moradora no Taquari eram as alagações, como a histórica de 2015 que passou dos 18 metros, o que tem assolado o Rio Acre nos últimos dois anos é a falta d’água. Um ano após a maior cheia, veio a maior seca, quando chegou à marca de apenas 1,30 metro em setembro de 2016. Este ano o leito ficou na casa de 1,50 metro.

Foto: Alexandre Noronha/Secom

Antônio Viana, catraieiro no porto do Mercado Elias Mansour, está a postos para remar desde as 5 da manhã até às 18 horas. Ele diz que atravessa o rio cerca de 50 vezes por dia. Reclama que o rio está seco porque as pessoas não cuidam: “O pessoal derruba muito. A sujeira também, né? Se tu ver, é só as imundícies: sacolas, pneu de carro, tubo de televisão, geladeira, colchão… O pessoal não tem consciência nenhuma. É triste isso aqui. Mas ó, a natureza cobra, viu? Isso não fica de graça não!”, profetiza.

O que acontece com o Rio Acre?

Esta não é uma explicação simples, pois existem diversos fatores e causas. Um dos motivos é o uso e ocupação da bacia, que envolve o rio e seus afluentes. Na medida que o uso do solo altera a floresta dessa bacia, a infiltração de água é comprometida e dificulta o abastecimento do lençol subterrâneo, que é muito importante para o provimento aquático para o rio em épocas de seca.

A população em torno da bacia cresceu muito nos últimos 20 anos. “Com isso, a infiltração da água no solo não tem acontecido como devia, porque há muitas regiões desmatadas, regiões impermeabilizadas, urbanizadas. E sem o manto freático, não existe a reserva para manter o nível quando o rio baixa”, explica o professor pesquisador da Universidade Federal do Acre (Ufac) Alejandro Fonseca Duarte.

Então, se a cobertura vegetal é danificada, o solo absorve menos e escoa mais. Com isso, a água acumulada durante o inverno é perdida, pois vaza mais rápido. Isso comprova que o desmatamento e as queimadas comprometem a manutenção e a conservação do ecossistema.

O desmatamento das matas ciliares e o lixo jogado na bacia também contribuem para as inundações por conta do assoreamento, pois, sem a mata, a possibilidade de desbarrancamento cresce e o rio arrasta os sedimentos que causam a elevação do nível do solo, que ainda é piorado com os detritos deixados na bacia.

“O segundo motivo é decorrente da mudança climática global, que tem trazido eventos extremos frequentes para esta região desde 2005. Nesse período, está havendo inundações periódicas numa frequência maior, o que antes não existia, assim como secas mais prolongadas”, explica Vera Reis, coordenadora da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais (CEGdRA).

O Acre decidiu implementar uma série de políticas para mitigar e adaptar esse processo, porque a mudança climática e a variabilidade climática são uma realidade que é impulsionada pela ação humana, como o uso irregular do solo”, diz Vera.

A ação humana colaborou para a intensificação do período de seca na Amazônia em 2016, o pior em 100 anos. É o que aponta um estudo da Universidade de Connecticut (EUA) publicado na “Scientific Reports”, da editora da revista “Nature”.

A vez da Ciência

“Não há muito o que possa ser feito para conter de modo rápido o clima extremo e os graves eventos relacionados a ele. Porém, o estado do Acre efetiva inúmeras ações e políticas públicas para contrapor as mudanças, principalmente no que se refere ao combate ou reorientação das ações humanas que aumentam as vulnerabilidades já existentes”, afirma Edegard de Deus, secretário de Estado de Meio Ambiente.

O estado, que possui 87% de sua floresta preservada, conseguiu o feito de reduzir o desmatamento em 34% entre 2016 e 2017, de acordo com Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

E o governo intensificou a produção em áreas abertas, que já haviam sido desmatadas no passado, tornando esses espaços mais produtivos e rentáveis por meio de sistemas agroflorestais, criação de pequenos animais, programa de piscicultura, mecanização agrícola para minimizar o uso do fogo e as florestas plantadas de açaí e seringueira. “Até mesmo a pecuária, antes uma grande ameaça à floresta, conseguiu triplicar de um para três milhões de cabeças de gado em todo o estado, sem desmatar novas áreas”, afirma o secretário.

Em 2012, o Acre concluiu o Plano Estadual de Recursos Hídricos (PLERH-AC), um instrumento de gerenciamento com quatro diretrizes sólidas e dez programas efetivos que são subdivididos em 24 projetos, que têm por finalidade o planejamento de usos múltiplos da água, com a definição das prioridades, ações e projetos necessários, visando compatibilizar os usos e conservação do meio ambiente. Entre as ações do PLERH, pode-se destacar:

– Apoio à gestão municipal de bacias hidrográficas: atividades de capacitação, formação, educação e sensibilização da população em geral. Em dezembro de 2016, por exemplo, foi realizado o seminário sobre “Políticas Públicas Ambientais e Gestão de Recursos Hídricos do Estado do Acre”, destinado aos prefeitos da gestão 2017-2020.

Expedição Rio Acre, realizada em 2016, estudou a nova relação do rio com as cidades (Foto: Arison Jardim/Secom)

Na ocasião, foi elaborada a Carta de Rio Branco, que traz como premissa um pacto para melhorar a gestão das águas municipais.

Já em 2017, foram realizadas oficinas de planejamento em 16 cidades, com a participação de gestores e técnicos de várias secretarias, objetivando o levantamento dos principais problemas relacionados aos recursos hídricos nesses municípios, com a elaboração de uma matriz de ações a serem executadas.

– Modernização e ampliação da rede hidrometeorológica, que realiza o monitoramento dos eventos extremos como secas e cheias.

– O estabelecimento da rede de monitoramento da qualidade de água, que está sendo realizado com apoio da Agência Nacional de Águas (ANA).

– O Programa de Conservação e Recuperação de Nascentes e Matas Ciliares da Bacia do Rio Acre, que, segundo o diagnóstico do PLERH, é a bacia mais impactada do estado. Foram implantadas 120 unidades modelos de recuperação, cadastro e sensibilização de 480 produtores ribeirinhos que vivem na calha do rio e feito o plantio de 1.200.000 mudas de espécies arbóreas frutíferas e florestais.

– Expedições científicas, como a realizada no Rio Acre, com o objetivo de conhecer as condições geofísicas e hidrológicas para implantação de medidas estruturantes de regularização de vazão e contenção de enchentes.

– Mais recentemente, foi assinado o Acordo de Cooperação Técnica entre as instituições governamentais que trabalham com a implementação do Pacto Nacional pela Gestão das Águas (Progestão) no Acre. O objetivo foi fortalecer o Sistema Estadual de Recursos Hídricos e a Política de Gestão de Riscos Ambientais através do desenvolvimento de ações conjuntas.

Para esse trabalho, que será coordenado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), são parceiros o Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação de Serviços Ambientais (IMC), o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), a Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac) e o Corpo de Bombeiros Militar, por meio da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil.

O Pacto das Águas, almejado pelo PLERH-AC, vai depender da capacidade de articulação dos atores locais envolvidos na gestão dos recursos hídricos em cada bacia hidrográfica. Ou seja: poder público, usuários da água e sociedade civil.

Assim, todas as ações e estratégias pertinentes estão em andamento no estado do Acre para fazer frente às mudanças climáticas extremas e à crise hídrica que atinge o planeta.

Cabe então à sociedade compreender a necessidade dessas políticas e apoiá-las, assim como realizar as mudanças de hábito necessárias para que elas se efetivem com maior eficácia, para que, assim, o rio se perpetue e continue sempre presenteando com histórias a vida de seu povo.

Texto de Alexandre Noronha || Fotos de Alexandre Noronha e Secom/Acre || Diagramação de Izaias Almeida