Yawanawá: de volta à aldeia sagrada

"Agora começamos uma nova era", afirma o cacique da aldeia localizada no alto do Rio Gregório

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Terreiro Sagrado dos Yawanawás

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Cacique Biraci Brasil e as lanças sagradas

No local em que pela primeira vez viram um homem branco subir o barranco do rio Gregório, lá no alto, sob a liderança do cacique Biraci Brasil (Nixiwaka), os índios Yawanawá estão reconstruindo a aldeia sagrada, onde outrora habitava todo o ‘povo do queixada’, sob a orientação de Antônio Luiz, o patriarca centenário e maior pajé.

Biraci Brasil vem recebendo orientações dos espíritos da floresta e está conduzindo diretamente os trabalhos. Os primeiros movimentos foram iniciados em 2005. Na margem esquerda estão sendo construídas as casas dos índios que irão habitar na aldeia enquanto na margem direita foi levantada uma oca, ligada por um trapiche à outra ampla casa, todas cobertas por palha de palmeiras, abundantes na região. Ali, Biraci inicia uma nova fase na vida da aldeia. A terra é abençoada e rica para quem vive na floresta. Muita caça, muito peixe, terra fértil e rica biodiversidade. O clima é agradável. À noite sempre faz frio. Nesta época, muita chuva.

Segundo Bira narrou, seu povo já teve o tempo em que vivia unido em uma só aldeia. Vieram então os caucheiros peruanos, depois os seringalistas brasileiros, com a tentativa de escravização material para obtenção da borracha. Houve a demarcação da terra, os grandes projetos econômicos com o nome Yawanawá, o início da recuperação da cultura, dos costumes e da espiritualidade. "Agora começa uma nova era", afirma o cacique.

A aldeia sagrada será um local onde os jovens irão aprender a andar na floresta, conhecer a mata, suas ervas, os hábitos dos animais, os rios e seus afluentes. Grupo de alunos com seus professores irão à aldeia sagrada para aprender tudo isso e ainda a arte da cerâmica, as tradições, as brincadeiras, as comidas, etc. Biraci quer se embrenhar na mata com o povo, aproximá-lo cada vez mais da floresta e esquecer que, recentemente, muitos estavam se voltando para as cidades, iludidos. É o caso de alguns índios hoje estudantes universitários – 11 deles estão fazendo faculdade em Rio Branco e Tarauacá – mas o destino é retornar à aldeia e aplicar os conhecimentos adquiridos.

E, finalmente, o mais importante: a aldeia sagrada será um local, de busca espiritual, um centro de formação espiritual onde será permitida a entrada de pessoas de todo o planeta, de grupos de todas as linhas espiritualistas, que venham se apresentar e conhecer a forma Yawanawá de espiritualidade. Segundo Biraci, lhe interessa hoje apenas pequenos projetos que tragam o bem estar de todos que estiverem na aldeia sagrada e os que lá habitam.

Conta Biraci que, antes de morrer, Antônio Luiz disse para seu povo que nunca deveria sair daquele local, que nunca se separassem e nunca parassem de beber Uni, a bebida sagrada. O corpo de Antônio Luiz está enterrado na aldeia sagrada, mas em local muito reservado aonde só vai quem é convidado.

Antônio Luiz também deixou dito que sempre que bebessem Uni, os índios fossem até seu túmulo e deixassem um pote de Uni, para ele beber também. Deveriam deixar também um pouco de rapé de tabaco, planta utilizada amplamente em processos de cura e também na busca espiritual entre os Yawanawá.

O povo Yawanawá fez exatamente o contrário: abandonou a aldeia mãe, surgiram várias aldeiazinhas, embora a primeira delas, a Nova Esperança, seja de longe a mais importante e com maior número de moradores, mais da metade do total. O Uni praticamente foi banido. Também proibiram a língua nativa. Em 1982, Bira começou a construção da aldeia Nova Esperança. Em 2005, começaram os trabalhos na aldeia sagrada e no dia 22 de fevereiro de 2009, uma data histórica, o retorno do Uni e do Mariri ao terreiro da aldeia sagrada pela primeira vez depois de 27 anos.

Aldeia Nova Esperança: o ponto de partida

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Aldeia Nova Esperança, no alto do Rio Gregório

A aldeia Nova Esperança foi a primeira surgida com a consolidação da terra demarcada. Hoje é dirigida por Nani, enquanto Bira está empenhado na construção da aldeia. Nani é o braço direito de Bira e o segundo cacique geral. Bira conta ainda, para guiar o povo, com um grupo de guerreiros mais adiantados na vida espiritual, sua companheira Putany, primeira mulher pajé do povo Yawanawá, o velho pajé Yawa, Kuni, Tikã e o Manoel, fabricante do rapé sagrado, fiel companheiro e mais um grupo de leais guerreiros.

Nesta aldeia é realizado o Festival Yawa e ela continuará sendo o centro das decisões políticas, econômicas sociais e culturais. Ela é a base ainda hoje da implantação da aldeia sagrada, que está situada cerca de uma hora acima de bote (motor de popa). Quando há um mutirão, a Nova Esperança fica quase deserta. O trabalho é intenso e são mais de 300 índios envolvidos. Foi feito um grande mutirão na aldeia sagrada, mas uma enorme alagação acontecida em janeiro fez com que os índios perdessem o arroz. Esperavam colher seis toneladas e colheram apenas uma. Mas, imediatamente plantaram no local cinco mil pés de banana. Biraci já está fazendo o planejamento para um grande jardim de árvores frutíferas nas duas margens.

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Durante festa, índios yawanawás resgatam suas tradições com dança típica

O Povo Yawanawá é tradicionalmente um povo mais caçador que pescador e em suas terras sempre há fartura de proteína animal. Dentro de uma tradição de total respeito pela natureza, seus caçadores fazem caçadas coletivas ou individuais e suas caças preferidas são a anta, o veado, o porquinho (caititu) e o queixada. E também algumas aves, muito apreciadas pelas mulheres índias, como as nambus, cojubins e outras. O milho é muito apreciado. A macaxeira reina soberana, cozida, assada, em forma de farinha, como caiçuma está presente no dia a dia. Na aldeia sagrada não entra televisão. Bebida alcoólica – nem pensar – é expressamente proibida, isto tudo já a partir da aldeia Nova Esperança. Muitas dessas decisões são tomadas na oca da aldeia em conversas logo no início do dia.

Uni histórico

No dia 22 de fevereiro, um domingo, o cacique pajé Bira fez o primeiro trabalho com Uni na aldeia sagrada, depois de ter sido interrompido por 27 anos. Ele convidou 27 pessoas, a maior parte de extrativistas e agricultores da região de Rodrigues Alves e do Rio Croa, todos daimistas, quatro estrangeiros, estudantes de várias linhas da bebida Ayahuasca, Emílio Dia (daimista paulista), tendo sido a logística da viagem da comitiva coordenada pelo Centro de Estudos da Ayahuasca, Flor de Jurema, centro daimista do Rio Croa, que tem em sua direção Davi Nunes de Paula e Fabiana de Paula e é dirigido espiritualmente pela cabocla Jurema. Quanto a mim, fui convidado em sonho pelo Bira para ir à terra Yawanawá e finalmente a oportunidade surgiu. A caravana permaneceu na aldeia sagrada durante sete dias.

Unidaime ou Daimeuni?

Biraci abriu a porta da aldeia sagrada para o primeiro grupo espiritualista dentro do centro de formação espiritual e o escolhido foi a Doutrina do Santo Daime, aos quais se juntou o grupo de ayahuasqueiros da Escandinávia e permitiu um feitio do Daime, nos moldes dos ensinamentos do Mestre Irineu. O grupo visitante de daimistas e ayahuasqueiros, com a participação dos índios, construiu uma casinha de feitio, com fornalha de três bocas. O local fica situado a cerca de um quilômetro da aldeia sagrada em local no meio da floresta perto do Igarapé Caxinauá. O local também servirá de apoio ao Festival Yawa.

É importante citar, o Jagube (cipó) e a folha Rainha utilizados no primeiro feitio de Daime na terra Yawanawa foi levado dos jardins do rio Croa, cuja comunidade é a maior reflorestadora de Jagube e Rainha no vale do Juruá, com milhares de pés das duas plantas. O acordo firmado inclui também a cessão de mudas do Croa de suas variedades e vice-versa.

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Feitio do do Daime na Aldeia Nova Esperança

Para o cacique Biraci é este tipo de convívio que ele quer daqui para frente. Amigos que o ajudem a reconstruir a aldeia sagrada, junto com seu povo. Bira ficou especialmente satisfeito, pois é seu desejo que cada vez mais os Yawanawá se voltem para a tradição do Uni e durante os dias de feitio, até alguns índios que nunca tinham bebido Uni, tomaram Daime e gostaram. No momento não resta dúvidas na aldeia de que o povo do Daime é irmão, quase como se fosse outro povo indígena e, aliás, o sangue índio corre nas veias da maioria deles. Segundo Bira não interessa receber na aldeia pessoas com preocupações financeiras ou políticas, isto fica para a Nova Esperança. "Na aldeia sagrada só queremos quem nos alimente o espírito. Aqui é nossa aldeia mãe. Olha a floresta. Debaixo dela habita um povo. Aqui andamos e vivemos como o criador nos criou. Tudo começou aqui" – disse.

A linha Yawanawá

Antonio Luiz tinha em sua língua original oito nomes. É costume Yawanawá chamar as pessoas por vários nomes, como forma de homenagear os mais diversos parentes seja a mãe, o pai, os tios, as tias, etc. Segundo alguns cálculos, ele viveu 116 anos e dirigiu o povo por 107 anos. Como chefe espiritual recebia cinco guias. Biraci está trabalhando para receber os mesmos guias, um pedido especial que fez ao mestre espiritual e já vem sendo orientado por eles. O pajé mais velho da aldeia é o Yawarani, chamado simplesmente por Yawá. É pajé desde os 50 anos e hoje tem cerca de 90. Ele canta também, mas suas especialidades são a reza e os trabalhos com as plantas medicinais. É uma relíquia viva e suas rezas na língua nativa, acompanhados de sopros, são requisitadas por todos. Também recebe duas entidades. Outro pajé cantador, Tatá, mora numa aldeia do baixo rio e não participou das atividades.

Muitos dos cânticos tinham se perdido e o cacique Bira é o canal onde eles vêm sendo resgatados. No ano 2000 recebeu o cântico ‘Kanarô txereeteintê’, durante trabalho com Uni, ocasião em que o próprioYawa chorou de emoção. É um hino à criação, fala da arara amarela (Canindé), o pássaro que voa mais alto da espécie, sai de casa e voa para comer em outros rios, levando a mensagem de sua existência e volta para dormir em casa. Para Biraci o hino é também o símbolo da nova era em que o povo está entrando e simboliza as boas vindas a todas as manifestações de Deus no planeta Terra. Um grande presente no mariri do Uni para um convidado é escutar o hino do Kanarô e ver inserido nele seu nome, como um chamado de boas vindas.

O juramento do Muká

O terreiro sagrado do Muká é um lugar especial dentro da aldeia sagrada. Lá existe uma planta denominada Rarê Muká, a mais sagrada dentro da cultura Yawanawá. É uma planta simples, rasteira e muito rara. É também um pajé, simbolizado materialmente pela planta. Ela não é cultivada. Surge praticamente somente no terreiro sagrado e é quem cuida da folha Kãnikauá. O terreiro sagrado serve como retiro espiritual para formação de pajés, para dietas como a da caiçuma, do jenipapo e para fazer o ‘Juramento do Muká’ ou Juramento do Rarê’, o ato mais sagrado da cultura Yawanawá. Dez índios Yawanawá já fizeram o juramento na fase moderna. O juramento tem geralmente uma finalidade específica, como por exemplo, tornar-se um curador com plantas. O Juramento do Muká é o último recurso para cura de doenças difíceis. Quando Yawá iniciou a dieta, convidou alguns estudantes de pajelança para entrar com ele. Quatro se habilitaram, mas, na hora, três desistiram por acharem que ainda não era o momento e apenas o índio Nãinawa, que trabalha como enfermeiro da Funasa há 13 anos, topou e já está há um mês em dieta. Outro detalhe importante é que os demais índios cuidam da família daquele que está na dieta do Muká. Não deixam faltar nada para sua esposa e filhos, para que o estudante possa se dedicar integralmente à sua dieta.

Nãinawa é um índio especial. Faz uma dieta para se curar de uma enfermidade e para alcançar conhecimento de plantas medicinais, e tem como professor o velho Yawá. Como enfermeiro da Funasa vai incluir no seu trabalho diário o conhecimento adquirido e já está se tornando um importante aprendiz de pajé, confeccionador da lança sagrada da cultura Yawanawá (mustanti pastí) e rezador de grande eficiência. No terreiro sagrado também está plantado o Uni (cipó) e já existem vários canteiros de folhas Rainha.

Índios estrangeiros

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Encontro espiritual reuniu pessoas de vários lugares do mundo na aldeia

Os estrangeiros participantes desta jornada têm, todos, formação espiritual. Il Jan de Ghier nasceu na Holanda e mora na Noruega. Faz arte moderna, constrói casas com materiais recicláveis, faz exposições de esculturas na Escandinávia e dá palestras em toda Europa. Dirige com a esposa um círculo de Ayahuasca denominado Estrela do Norte, no Norte da Noruega. Participou intensamente de todas as atividades com Uni, Daime, rapé, pinturas com jenipapo e atividades na floresta.

Joana Hietasola nasceu na Finlândia e mora atualmente na Suécia. É professora de Ioga na tradição Saeraswati, uma das doze principais tradições do Hinduísmo. Para ela, o Daime e o Ioga se completam. Também participa de grupos de estudos de Ayahuasca na Europa.

Bjorn Mattsson nasceu na Suécia onde sempre morou. Foi diretor por 25 anos de uma indústria de panificação, mas abandonou tudo pela alternativa espiritual. Há 15 anos tem formação Sufi e trabalha com shamanismo de índios da América do Norte: os Blackfeet que habitam o Canadá e Norte dos EUA e o povo Hopi que vive no Novo México, Sul dos EUA. Participa de círculos de Ayahuasca em toda a Europa e possui uma pequena reserva florestal na Suécia, denominada ‘Santuário da Floresta’.

Maarit Bredsen nasceu e vive em Oslo, a capital da Noruega, trabalhando como psiquiatra em hospital. É estudante de várias linhas de shamanismo europeu e sul americano já tendo participado de pajelanças com os índios Kaxinawá.

A mensagem do Bira

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Cacique Brasil Biraci dá sua mensagem em defesa da floresta

Durante os sete dias houve várias palestras do Bira e do Yawa contando as histórias dos antepasssados, os sonhos, mensagens para a humanidade. Num dos dias, Bira disse: "A floresta preserva a nossa vida e garante nossa sobrevivência. Precisamos ter muito cuidado com ela. É difícil de cuidar de um território devido à pressão nacional e internacional. Desenvolvimento para o homem significa sacrificar a floresta. Vamos resistir enquanto tivermos força. Vocês são convidados a participar do movimento de preservação da natureza, somos os jardineiros deste jardim natural".

Antes de encerrar é preciso falar de Putany, a esposa do Bira, a primeira pajé do mundo Yawanawa. Ela canta, reza, aplica rapé e também recebe guias. Sua presença é de uma nobreza sem par. É uma fortaleza espiritual. O povo Yawanawá está em boas mãos e o futuro vai contar melhor o ressurgimento espiritual do Povo do Queixada, o animal mais solidário da floresta, que anda sempre junto.

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Serviços

A terra Indígena Yawanawá está localizada no alto rio Gregório, município de Tarauacá, com acesso a partir da BR 364 e viagem de barco de pequeno porte.

A visitação turística vem sendo estruturada com assessoria do Governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Esporte, Turismo e Lazer (SETUL), cujo produto turístico está inserido no roteiro Caminhos das Aldeias e da Biodiversidade.

As visitas ocorrem mediante agendamento de pequenos grupos em alguns períodos do ano e durante o Festival Yawa, que ocorre no mês de outubro. Os turistas firmam contrato de responsabilidade ética em relação à imagem do povo Yawanawá, seus kenês (desenhos sagrados), música, dança e demais costumes.

A alimentação fornecida ao visitante é a regional, com base de arroz, feijão, farinha, macaxeira, banana, galinha e pato, não compondo o cardápio pratos originários elaborados da caça e pesca para não causar impacto na fauna e em respeito à legislação ambiental e indígena.

A partir de contrato firmado com a Organização Yawanawá, cuja receita decorrente é direcionada em favor de toda a comunidade, a operação turística é realizada pela empresa Maanaim Amazônia Eventos & Turismo Sustentável (www.maanaim-amazonia.com), e-mail: contato@maanaim-amazonia.com, telefones (68) 3223-3232 ou (68) 9971-3232.

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