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Cultura

Arte urbana: grafiteiros ocupam o espaço da Biblioteca da Floresta

André Gonzaga (Assessoria FEM)
18.04.2012 15:21
Atualizado 18.04.2012 às 15:21

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A proposta do curso é a de valorizar a figura dos povos nativos da região Amazônica, como os índios, os ribeirinhos e os seringueiros (Foto: Val Fernandes)

A proposta do curso é a de valorizar a figura dos povos nativos da região Amazônica, como os índios, os ribeirinhos e os seringueiros (Foto: Val Fernandes)

Os artistas Claudeney Alves, Jessé Luiz e Tiago Tosh são os principais nomes que representam o graffiti em Rio Branco. É deles também o Coletivo Etnias, idealizado em junho do ano passado depois que o trio apresentou a exposição Etnias. Nada menos do que um convite para que o espectador desviasse a sua atenção do próprio umbigo, a fim de enxergar outra perspectiva dentro dos espaços urbanos. Uma possibilidade para que os conservadores também possam esquecer o preconceito e, assim, repensar naquilo que entendem como arte.

Em fevereiro, já em 2012, eles buscaram a parceria da Biblioteca da Floresta, ligada ao Departamento Socioambiental da Fundação Elias Mansour (FEM), para ministrar a oficina Etno Graffiti. O professor e jornalista Marcos Afonso, diretor da instituição, mostrou interesse pela causa. “Fiquei muito feliz quando o coletivo nos procurou. A comunidade precisa mesmo se apropriar, cada vez mais, dos espaços públicos. Hoje nós abrigamos 10 grupos temáticos das mais diversas áreas sociais e culturais, como o Sociedade Philosophia, Cinemacre, Pium Fotoclube e o Clube do Samba.”

A proposta do curso é a de valorizar a figura dos povos nativos da região Amazônica, como os índios, os ribeirinhos e os seringueiros, fortalecer o trabalho que o coletivo executa e ainda estimular a formação de novos realizadores. A procura, inclusive, superou a oferta do número de vagas. Agora, depois de dois meses, a oficina deve chegar ao fim na quinta-feira, 19. Um grande painel com a obra dos alunos será exposto no Dia do Índio, a partir das 16 horas, na Concha Acústica do Parque da Maternidade. Um evento que também faz parte da programação ‘Abril no Acre Indígena’.

O grafiteiro Tiago Tosh avaliou o andamento da oficina como “na medida”. “Os alunos se empenharam em aprender, conheceram a história do graffiti, conseguiram pegar as técnicas, foram iniciados no stencil e já estão até criando. Foi bem produtivo. Nós apresentamos o trabalho de outros artistas pra turma e agora depende deles continuarem experimentando e trabalhando referências até conseguirem achar o seu próprio estilo”, comenta.

Um grande painel com a obra dos alunos será exposto no Dia do Índio, a partir das 16 horas, na Concha Acústica do Parque da Maternidade (Foto: Val Fernandes)

Um grande painel com a obra dos alunos será exposto no Dia do Índio, a partir das 16 horas, na Concha Acústica do Parque da Maternidade (Foto: Val Fernandes)

 

A turma

Dos 20 alunos inscritos, apenas cinco continuaram até a última etapa. “Realmente ficou quem tinha que ficar”, comenta Claudeney Alves. Um deles chamou muito a atenção pela maneira com que conseguiu assimilar todo o conteúdo e também pela sua história de vida. Naumo Lopes, de apenas 17 anos, cumpre medida socioeducativa no ISE. Por meio do graffiti, ele passa pela primeira capacitação de sua vida, porque, enfim, sentiu interesse em algo. Além disso, a prática de atividades curriculares também ajuda a reduzir o tempo que ele vai passar no instituto.

“É bom ter alguma coisa para fazer e eu estou muito aplicado em aprender mais e mais. Acho que atingi um bom resultado dentro da turma por esse motivo, além de também ter me identificado com a arte”, enfatiza Naumo.

A experiência em vídeo

A videomaker Carina Cordeiro acompanhou durante um mês toda a produção da oficina Etno Graffiti. O material deve se tornar um documentário que vai mostrar o passo-a-passo dessa manifestação e ainda o progresso dos alunos. “É interessante porque é muito perceptível que essa turma é bastante heterogênea e o mais interessante é que eles conseguem dialogar sem problema nenhum. Até eu consegui aprender algumas coisinhas”, relata.

Ela diz também que ficou surpresa com o método de ensino. “Eles sabiam exatamente o que queriam passar e como fazer isso. Foi muito bom participar desse processo. Eu abracei mesmo a causa porque se trata de um processo de formação, que é sempre muito importante. No meu caso, serviu também para aguçar o meu olhar e conhecer um trabalho que, com certeza, ainda vai crescer muito pela cidade”.

A edição do material vai passar pelas mãos de Ítalo Rocha, que faz parte do Núcleo de Produção Digital da Usina de Arte, o NPD. A previsão para o lançamento do documentário é para daqui um mês.

Um toque artístico diferenciado, colorido, provocador e inteligente. Como é o caso da obra que foi produzida na Ponte Metálica (Foto: Tiago Tosh)

Um toque artístico diferenciado, colorido, provocador e inteligente. Como é o caso da obra que foi produzida na Ponte Metálica (Foto: Tiago Tosh)

 

Rio Branco e o graffiti

O movimento ainda é tímido por aqui, mas aos poucos desperta a curiosidade da população que a todo momento pode ser surpreendida ao olhar para os imóveis dispostos pela cidade e perceber que eles sofreram uma intervenção. Um toque artístico diferenciado, colorido, provocador e inteligente. Como é o caso da obra que foi produzida na Ponte Metálica.

Esse tipo de abordagem inteligente auxilia a desconstruir o pensamento de quem ainda acha que graffiti e pichação são a mesma coisa. Pois não são. Longe, mas muito longe mesmo do ato marginal, o grafiteiro desenvolve um papel de agente transformador do território urbano. São Paulo representa bem isso, é uma referência de como usar a arte conceitual, contemporânea, para reavivar espaços esquecidos e chamar a atenção para o estilo brasileiro.

O que é o graffiti?

O norte-americano Jean-Michel Basquiat saiu do anonimato para as galerias de arte e provocou a Nova York da segunda metade dos anos 70. O artista apostou no inusitado, usava os prédios abandonados da cidade para projetar o seu imaginário. Imprimia os seus personagens emblemáticos e multi expressivos nas paredes antigas. A linguagem utilizada era o graffiti.

Enquanto alguns se questionavam sobre o papel desse tipo de manifestação, outros ainda nem tinham entendido o quão interessante a experiência poderia se tornar. “Será que eu gosto disso? Aliás, o que isso quer dizer?”.

O fruto transgressor da América do Terceiro Mundo, um novaiorquino com ascendência haitiana e porto-riquenha, ensinou uma lição para os críticos carrancudos e fincados com os dois pés no bê-a-bá tradicional: o mais do mesmo cansa. O rapaz fez tudo isso sustentado pelo orgulho de sua negritude, que pulsava ao ritmo do Jazz e também do Hip Hop.

O boom na carreira de Basquiat

Aconteceu no começo da década de 80, quando ele participou da exposição coletiva The Time Square Show. O seu trabalho rendeu boas críticas nos anos seguintes e o aproximou de celebridades, curadores e colecionadores. Chegou até mesmo a namorar a cantora Madonna, que ainda não era famosa, e fez amizade com o polêmico Andy Wharol, um dos grandes nomes do Pop art.

Infelizmente a comemoração do sucesso foi desmedida, na verdade já era há muito tempo. O consumo de um coquetel composto de heroína e cocaína, o chamado speedball, apagou completamente o brilho da grande estrela de pele negra. Basquiat foi vítima do seu próprio excesso aos 27 anos de idade e hoje é lembrado como um dos artistas mais significativos do final do século XX.

Enquanto isso, no Cambuci…

Já no Brasil, uma das grandes referências do graffiti veio do bairro do Cambuci, na Grande São Paulo, lugar de moradia de Otávio e Gustavo Pandolfo, mundialmente conhecidos como “Os Gêmeos”. Eles já viajaram por diversos países apresentando o trabalho que desenvolvem desde o final da década de 80. São conhecidos nos Estados Unidos, Alemanha, Grécia, Cuba e até participaram da pintura da fachada do Tate Modern, um museu de arte moderna de Londres. O estilo da dupla também tem um forte apelo do Hip Hop.

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