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Acre

No Vale do Juruá, uma lição de fé e esperança por Nossa Senhora da Glória

Resley Saab
17.08.2019 15:25
Atualizado 18.08.2019 às 16:06

Em Cruzeiro do Sul, Novenário da padroeira do município completa 101 anos sendo a segunda maior manifestação de fé cristã da Região Norte do Brasil

Maria Odaíza Bezerra de Amorim mal dormiu pensando no dia seguinte. Na quinta-feira, 15, acordou às 5 horas, fez o café, serviu ao marido e devorou uma tapioca. Voltou para o quarto. Foi retirar do guarda-roupa a bata branca que veste, todos os anos, para a grande procissão, desde que o milagre aconteceu. Fez um retoque na fita de renda. Ajeitou o embanhado da calça do esposo. Preparou oito velas, cada uma representando um ano desde que obteve a graça. Cravou-as numa base de papelão para proteger as mãos dos pingos quentes da cera de parafina e à tarde, partiu para a catedral.

Diácono da Catedral Nossa Senhora da Glória se prepara para iniciar a procissão pelas ruas, na edição de número 101 do Novenário de Cruzeiro do Sul (Foto: Diego Gurgel/Secom)

A mulher de 59 anos, humilde, sofrida, de coração grandioso, foi juntar-se a outros milhares de pessoas numa das maiores manifestações católicas do país, o Novenário de Nossa Senhora da Glória, em Cruzeiro do Sul, na região mais ocidental do Brasil, e que em 2019 completa 101 anos, consolidando-se como a segunda maior festa religiosa da Amazônia, atrás apenas do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Nesta edição, mais de 30 mil peregrinos foram às ruas da cidade, segundo estimativa da Polícia Militar do Estado do Acre, embora os organizadores falem em 40 mil.

Como a mulher do fluxo de sangue que tocou as vestes de Jesus para ser curada, a história de Maria Odaíza teve um desfecho para além da compreensão pura e simples, onde a razão termina e a fé começa. Descobriu uma doença grave no útero que a fazia se esvair em sangue todos os dias. Por três meses, da descoberta da doença à cirurgia, sofreu e sofreu muito.

Maria Odaíza e o esposo, Edmundo Angelim, em louvor a Nossa Senhora da Glória: ‘sonho com a Santa e a cura por meio da cirurgia’ (Foto: Diego Gurgel/Secom)

Certo dia perdeu os sentidos. Fora vencida pela anemia forte. Mas aí, teve uma visão. “Ela [Nossa Senhora da Glória] apareceu diante de mim e disse: ‘Filha, me dê a sua mão. Você ainda tem muito a cumprir aqui na terra. Vai dar tudo certo na sua cirurgia’. Acordei com a sensação de que não era sonho. Aquela mulher linda, toda iluminada, me deu uma paz que até hoje não tenho como explicar”, relembra a peregrina, com os olhos tomados em lágrimas.

Desde então, a cada ano de Novenário, Maria Odaíza aumenta uma vela. “Agora são oito, mas vai chegar um dia que será um tabuleiro inteiro, porque eu tenho certeza que ela vai viver muito ainda”, dispara o esposo a gargalhadas, em tom de carinho, o ex-seringueiro Edmundo Aquino de Amorim, 71 anos, que pelo visto, é um verdadeiro parceirão da sua mulher.

Andor de Nossa Senhora da Glória é levado, inicialmente, com o auxílio de militares da Marinha do Brasil pelas ruas de Cruzeiro do Sul (Foto: Diego Gurgel/Secom)

Ao longo da procissão, Edmundo se encarregará de segurar pelos braços a quem ele chama de “o amor da vida dele”, nos momentos em que os pés descalços dela esmorecerem. Debaixo do braço, uma libra de velas. “É pra entregar pra quem não tem. Quem não tem vela pra caminhar e quiser uma eu sempre dou”, explica ele.

A imagem de Nossa Senhora da Glória, a padroeira de Cruzeiro do Sul, deixou, pontualmente às 19 horas, a Catedral do município pelas ruas da cidade, subiu e desceu as grandes ladeiras, uma das características geográficas mais marcantes  do município.

Imagem de Nossa Senhora da Glória é levada por militares para o interior da Catedral, na missa que antecedeu a procissão pelas ruas de Cruzeiro do Sul (Foto: Diego Gurgel/Secom)

Nas encostas de cada elevação, como a da avenida 28 de Setembro, candieiros enrolados em papéis celofanes mais pareciam estrelas coloridas a iluminar os caminhos dos fiéis, enquanto eles entoavam cânticos como ‘Glória, Glória, Glória a Maria, Nossa Mãe pia, envolta no manto azul, Glória, Glória a Maria, padroeira de Cruzeiro do Sul”.

Gladson expressa gratidão pela população e agradece pela bênção de tornar-se governador

O governador Gladson Cameli esteve participando efetivamente das comemorações, agora, como chefe do Poder Executivo. Ele manifestou a satisfação de poder estar junto da população de seu município, tendo ele mesmo ido agradecer a uma pedido a Nossa Senhora da Glória, o de tornar-se governador do Estado do Acre nas eleições passadas.

Governador caminha com a primeira-dama, Ana Paula Cameli, na procissão; momento de agradecer pelas bênçãos alcançadas e para pedir proteção no governo (Foto: Diego Gurgel/Secom)

“Pedi-Lhe em oração que ajudasse a me tornar governador e fui ouvido. Venho aqui agora, agradecer a Deus e à nossa padroeira pela graça conquistada. O sentimento é de paz e de gratidão”, ressaltou Gladson Cameli, enquanto fazia questão de cumprimentar as pessoas e revendo amigos.

As santas e o colorido dos candieiros

Em cada cruzamento que o cortejo passou, uma santa católica podia ser vista, representada por senhoras trajadas com mantos característicos de cada imagem. Sebastiana Lima, de 70 anos, era uma delas. Na esquina da Rua Benjamim Constant com a Avenida 28 de Setembro, usava as vestes de Nossa Senhora das Dores.

“Perdi a conta de quantos anos me dedico ao Novenário. Mas o que é certo é que fico muito feliz de poder participar de uma festa tão bonita e que me emociona muito”, ressalta.

Idosa representa Nossa Senhora de Fátima em um dos pontos altos da cidade, enquanto a procissão passa pela avenida mais embaixo; exuberância dos detalhes da peregrinação impressiona ( Foto: Diego Gurgel/Secom)

Já na reta final, dona Iaiá Vilanova, de 81 anos, representava Nossa Senhora das Graças. “Essa é minha vida. Servir a Deus, a Jesus e à Nossa Senhora da Glória. A minha alegria é imensa e vou continuar participando até quando Nosso Senhor me permitir”, afirma a anciã.

Estudantes da Escola de Ensino Fundamental São José também abrilhantaram a festa, levando para as ruas uma coreografia especial que lembrou anjos em regiões celestiais. Entre eles, estava a jovem Maria Eduarda de Freitas, 15 anos, que também veio agradecer pela cura da avó, Maria Ferreira Damasceno, 75 anos, de uma depressão.

Maria Eduarda fez votos com Nossa Senhora da Glória pela recuperação de sua avó, acometida por uma depressão; hoje, ela vem de anjo para louvar à Deus e à santa (Foto: Diego Gurgeal/Secom)

Em alguns bairros, devotos da santa montaram altares em homenagem à procissão, em frente de suas casas. A imagem de Nossa Senhora das Graças voltou ao altar original na Catedral, mas a festa continuou no palco com atrações gospel ao longo de toda a noite.

Confira mais fotos da grande festa católica

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