O vampirismo da imagem amazônica

O Bioma Amazônia é visualmente exuberante. Em termos gerais, o mundo inteiro tem os olhos voltados para este lugar, às vezes, com concepções exageradas, às vezes, desmerecendo o potencial, e, às vezes, com muito exotismo.

Ponto pra quem trabalha com imagem, com informação e jornalismo nesta região. Digo em termos de “mercado profissional”. Pode-se considerar que é um privilégio ter “como quintal” a Floresta Amazônica e mostrar de maneira completa o que ela significa, tanto pela amplitude do que ela realmente é, quanto simplesmente seu nome de maneira comercial. É mais do que um animal, uma planta, um rio. Ali existem pessoas, um contexto socioeconômico, e cada um com um papel fundamental, principalmente num período onde a palavra “sustentabilidade” está em pauta.

Trabalhando como repórter fotográfico há anos, atuando basicamente nessas regiões, podemos nos orgulhar com a quantidade de fatos desconhecidos, pouco explorados, denunciar outros não conhecidos, mas principalmente, ver que onde moramos tem uma importância mundial, em vários aspectos.

Com a constante visita de profissionais de imagem à nossa Amazônia, percebe-se a vontade de capturar belíssimas situações, muitas paisagens, animais exóticos e expressões dos amazônidas. Mas isso ocorre, geralmente, de maneira “fria”. É uma espécie de “vampirismo da imagem”, uma vez que não se respeita a história das pessoas que ali vivem. Pessoas transitando, literalmente, em seu quintal, apontando câmeras, arrancando expressões, sem ao menos perguntar um nome, dar um bom dia, conhecer aquelas histórias que, muitas vezes, vão parar em jornais globais e geram lucro aos seus autores. 

Com anos de experiência em reportagens, principalmente no interior do estado do Acre, muito humildemente aprendi o nome, o endereço e parte da história de muitas daquelas personagens que ilustraram as minhas matérias, e me orgulho disso. De maneira muito respeitosa, sequer fiz uma exposição fotográfica de povos indígenas, dos quais tenho vasto acervo de imagens, sem o conhecimento de cada um. Entendo que adquirir recursos financeiros sem um retorno de qualquer espécie pra estes cidadãos é, no mínimo, injusto. Digo pois presenciei, por muitas vezes, publicações grandiosas, exposições magníficas, sem ao menos a participação de forma presencial, financeira, agradecimento ou sequer de memória daquelas personagens ali impressas.

Oxalá o “vampirismo” ocorrido no meio de nossa Amazônia fosse meramente o de imagens sem reconhecimento real dos seus personagens!

Diego Gurgel é jornalista da Agência de Notícias do Acre

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