De índio para branco

 Cacique Biraci Brasil Nixiwaka, liderança do povo Yawanawá

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Foto Sergio Vale/ Secom

"Os homens brancos são filhos do criador. Em algum momento da criação esses homens iam se encontrar, trocar experiências. Aqueles que ainda mantiveram sua tradição, seu respeito, a união pelo criador, materiam uma boa convivência. Aqueles que perderam o espírito e esqueceram da sua criação, esqueceram o princípio do criador, perderam o respeito, é assim que está acontecendo com o mundo hoje.

Quem sou eu para avaliar se esse contato com o branco foi bom ou ruim. Hoje índio usa Internet. Com a Internet aqui na aldeia eu não tenho que sair daqui pra São Paulo, pro Rio de Janeiro, pra Rio Branco ou Tarauacá pra falar com as pessoas, com as autoridades. Eu posso estar sentado na minha casa, do nosso jeito, do nosso modo e falar com as pessoas.

Aprender a educação do branco também é muito importante pra gente se relacionar, porque através dela  nós podemos ler, escrever, nos comunicar com as pessoas. Estamos aprendendo a nos comunicar com a sociedade branca. Quando ninguém sabia falar o português tudo o que diziam pra nós a gente só sabia dizer se era certo ou errado, não conhecíamos nada. Só tínhamos duas opções: aceitar ou não, ser amigo ou inimigo. Com os conhecimentos a gente pode avaliar e ser mais compreensivo com as culturas diversas.

Mas ainda precisamos fortalecer mais a nossa cultura. Temos que voltar ao nosso ponto de equilíbrio. A nossa geração jovem continua nascendo falando português, sonhando em português, temos que continuar falando português, mas sonhando Yawanawá, e num anoitecer, quando formos dormir, sonhar na nossa língua. Isso acontece quando estamos com o nosso espírito verdadeiro. Sabendo falar português e usufruir tudo o que o contato nos oferece, mantendo os profundos conhecimentos da nossa tradição, nod dá uma facilidade de pode escolher o que nós queremos e o que não queremos.

Nossas crianças precisam se aprofundar nas nossas tradições. O caminho já está aberto e temos a segurança da nossa espiritualidade, porque são os pajés que buscam o conhecimento sagrado. E é daí que vem as mensagens do dia-a-dia, o caminho que temos que seguir.

Quem somos nós pra ensinar alguma coisa pro homem branco, o povo que desenvolveu o avanço da humanidade, da medicina, o conhecimento cientifico, a economia. Muita coisa avançou na humanidade. Nós nunca inventamos nada, nos mantemos exatamente como o criador nos criou. Se hoje estou aqui é porque o homem branco veio fazer contato com o meu povo, veio até a cabeceira do rio onde o meu povo sempre viveu.

Se ele não tivesse vindo ainda não tínhamos motor, roupa, aprendido falar português, não comia sal, nunca tinha provado açúcar, nem tomado uma pílula química, não sabia de nada do mundo do branco. Mas também tenho certeza que nenhuma ave, nenhuma árvore, não teria sofrido tanta agressão.

Nunca construímos nem construiremos grandes fazendas matando muitos seres, muitos espíritos de cura como as árvores, a floresta. Nunca ofendemos a nascente dos nossos rios, nunca poluímos os rios, nunca botamos a vida dos animais em risco de extinção. Sempre nos comunicamos em perfeita harmonia, desde o dia da criação e aprendemos a nos respeitar. Respeitamos as árvores, as aves, o peixe, os rios, a terra a floresta, os bichos como a nós mesmos.

A sociedade branca nunca fez isso. Pelo contrário: devastaram a floresta, poluíram os rios, e inventaram muita coisa que agrediu a natureza. Essa gente tem que parar de fazer isso. Agora o mundo inteiro está preocupado com o aquecimento global, a mudança climática do planeta, todo mundo tá com medo. Muitas doenças incuráveis. São reações da natureza. Tem que parar de inventar coisas prejudiciais e pedir perdão ao nosso criador. Parar de inventar, de competir.

Os homens brancos são muito competidores, eles competem pra ver quem manda mais, quem tem mais armas, quem inventa mais tecnologia. Tão envenenando a si mesmo, ao planeta. Estão fazendo uma bomba não só pra eles, mas pro mundo inteiro. Esses homens são as piores pessoas do universo.

Acredito que em algum momento o criador vai tomar o poder de homens como esses, homens competidores, não numa competição pra fazer o bem, mas numa competição pra fazer o mal, dominar aquilo que não é seu, o que não lhe pertence, nunca lhe pertenceu. Isso está destruindo a terra, a humanidade. A humanidade tem que fazer uma reflexão.

Dá pra viver sim em harmonia com a natureza. Meu povo vive desde que o criador nos colocou na terra. Em 200 mil hectares de terra eu não tenho mais de 20 mil hectares ocupados. Se não houver harmonia vai acontecer um desastre no futuro."

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